Último campeonato de Piquet na F1

Nelson Piquet treina com a Benetton Ford em Silverstone - pintura de Jorge Eduardo Alves de Souza

 

Em dezembro de 1990 fui convidado para escrever artigos sobre os treinos e as corridas de Fórmula 1 do tricampeão Nelson Piquet.

 

Ao longo da temporada de 1991 eu conversaria com Piquet após cada corrida, gravaria a conversa telefônica e editaria o texto. A idéia era vender os artigos a publicações brasileiras.

 

Nelson Piquet e seu então sócio, José Álvaro (Zeca) Vassallo, entregaram-me o projeto com total autonomia para negociar, traçar a estratégia de seleção de veículos, gravar, editar etc.

 

Era lisonjeiro, mas uma enorme responsabilidade pesava nos meus ombros. O nome do tricampeão estava em jogo. Eu decidi que os artigos não teriam a minha assinatura, somente a do Nelson.

 

O período de férias de verão é péssimo para implementação de projetos jornalísticos. Foi uma correria típica de Fórmula 1.

 

Primeiro eu ofereci o projeto para a Agência Estado, de O Estado de S. Paulo. A diretora da Agência Estado na época, recém contratada da Gessy Lever, considerada um gênio de marketing e publicidade, tratou-me com absoluto desprezo, fez uma série de perguntas como se preenchesse um formulário, e ainda misturou Fórmula Um e corridas de Fusca. Enfim, não entendeu nada. Sei apenas que ela não demorou muito tempo no cargo.

 

O segundo passo, a minha única opção, foi apresentar o projeto da coluna a um grande jornal de cada capital brasileira. Se não houvesse acordo com esses jornais, eu investiria nos jornais de prestígio regionais. Eu precisava com urgência de volume e quantidade de mídia.

 

A distribuição dos textos seria uma operação cansativa, complexa, quase artesanal. Não havia internet, o sistema de fax era precário.

 

Para abreviar a história, eu consegui 23 jornais. Entre os mais destacados, o ‘Jornal da Tarde-O Estado de S. Paulo’ e o ‘Jornal do Brasil’. Registro aqui a inteligência e a visão jornalística de Celso Kinjô, diretor do ‘Jornal da Tarde’. Ele percebeu rapidamente o alcance do projeto e apressou-se em fechar o acordo antes de outro jornal pauistano. O ‘Jornal da Tarde’ foi o que melhor aproveitou as colunas do Nelson. Até hoje os fãs de automobilismo e Fórmula 1 lembram das colunas de Nelson no ‘Jornal da Tarde’.

 

Os custos de ligações telefônicas correram por minha conta. Seria muito complicado – não havia as facilidades de hoje – que as empresas de Nelson no exterior arcassem com tais despesas. Ao final, depois de recebido o dinheiro dos jornais – era mais difícil conseguir a grana do que realizar o trabalho de entrevista e edição – depositava-se na conta na NZ Empreendimentos (iniciais de Nelson e Zeca).

 

Dois jornais merecem ser citados, do ponto de vista negativo: o ‘Jornal do Brasil’ e a ‘Gazeta de Alagoas’.

 

O jornal alagoano somente acertou a conta, com enorme atraso, após uma conversa direta com Pedro Collor, diretor-proprietário. Eu conhecia Pedro desde os tempos de menino, em Brasília. Ele me disse: ‘Não é possível. Você e Nelson são amigos nossos.’ Pedro cumpriu a palavra. O dinheiro foi depositado no dia seguinte.

 

Para receber do ‘Jornal do Brasil’ foi uma odisséia. Eu poderia escrever um tratado sobre táticas, manhas e mentiras para enrolar um prestador de serviços.

 

Enfrentei também dificuldades com outros jornais. Eu corri atrás de um por um. Recebi tudo o que nos deviam.

 

Do ponto de vista de bons pagadores, corretíssimos, dois jornais merecem aplausos. Jamais me causaram dissadores, muito ao contrário: o ‘Jornal da Tarde’, de São Paulo, e a ‘Gazeta do Povo’, de Curitiba.

 

Nelson seguiu à risca o que havíamos acertado. Conversávamos após os treinos e as corridas. O resultado foi um retrato sem retoques de uma temporada completa de Fórmula 1, na visão de um dos maiores pilotos de  todos os tempos.

 

Os artigos descreviam em minúcias as inovações tecnológicas. Por mais incrível que pareça, para quem não o conhece, Nelson tinha uma paciência inesgotável para explicar tudo, em detalhes, até que eu entendesse. Os telefonemas eram de longa duração. Imagine um piloto de ponta, após uma corrida de duas horas, ou um treino desgastante, estar disposto a conversar.

 

Ele nunca falhou comigo. Nenhuma corrida. Uma vez, sim, ele demorou bastante. Eu o localizei finalmente – havia prazo para despachar via fax o texto para os jornais – e ouvi ao fundo, bem nítido, o ruído das pás do helicóptero. Ele estava embarcando, mas retornou para cumprir o trato.

 

Tudo se fez entre o piloto e o jornalista sem contrato formal, exigência, cobrança, crítica. O acordo foi honrado no fio do bigode, tal como era antigamente.

 

A partir de agora vamos resgatar a memória desssas corridas.

 

Há alguns anos encontrei Nelson numa festa em Brasília e disse-lhe que as gravações estavam arquivadas comigo. Eu queria entregá-las. Nelson sorriu, sugerindo que não era uma boa idéia. Ele poderia perdê-las.

 

- É melhor ficar com você.

 

publicado em 23 de abril de 2007

Fazemos de tudo e com muito amor

desenho de Cristina Oliveira Cruz

 

Crônica baseada em história real

 

‘Fazemos de tudo e com muito amor’ – ela disse.

 

Até parece, mas não é uma garota de programa anunciando serviços de qualidade à população carente.

 

A frase foi pronunciada por Deivanyr Nelore, em Brasília, na redação do setor de imprensa de uma instituição pública federal, respondendo à pergunta sobre os cargos e funções do pessoal que ali trabalhava. A autora da exótica sentença, formulada com gestos teatrais, é uma jovem, já bem próxima do nível mais avançado de senhora.

 

Deivanyr ostenta seios fartos e os exibe em decotes indiscretos. Alguns homens dessa prestigiosa instituição pública consideram-na sedutora, sexy, atraente, mas, definitivamente, não é uma mulher bonita. O nariz, adunco, é agressivo, e o olhar, tenebroso. A jovem, quase senhora, exerce um cargo de certa relevância, alcançado por antiguidade no posto, inércia do serviço público e atividades extra-expediente.

 

O nome Deivanyr não tem explicação lógica. Uma justificativa, talvez. É costume de famílias brasileiras registrarem no cartório um nome diferente, singular, a partir da junção dos nomes de pai e mãe, ou de avô e avó, ou de padrinho e madrinha, para homenagear os frutos benditos do casamento com juras de amor eterno. Em geral, os primogênitos carregam a maldição por toda a vida. Às vezes o restante da filharada é poupado.

 

O apelido Nelore é puro de origem. Com inteira justiça, Deivanyr foi agraciada com o sobrenome Nelore pela rudeza no convívio, estilo espalhafatoso de agir e falar sem pensar – e porque nasceu em Goiás.

 

O gado da raça nelore é nervoso, facilmente se torna bravio, selvagem. Basta permanecer algum tempo longe do contato com os vaqueiros. Nove entre dez pecuaristas brasileiros de boi de corte preferem o nelore.

 

De barnabés a boiadeiros há gosto para tudo neste mundo de Deus. Em razão da rusticidade do gado de origem indiana e do comportamento bizarro de uma minoria barulhenta de nativos em Goiás, os brasilienses definiram assim esses goianos: é o ‘jeito nelore de ser’.

 

publicado em 12 de maio de 2007