O poder absoluto da FISA

Nelson Piquet treina com a Benetton Ford em Silverstone - pintura de Jorge Eduardo Alves de Souza

 

A primeira reunião dos pilotos com Jean-Marie Balestre para debater as regras do campeonato de 1991, durou quatro horas. O presidente da nova Comissão de Inquérito sobre Segurança deixou bem claro que os comissários podem fazer o que quiserem. Se acreditarem que o piloto errou, ele pode ser multado, perder os pontos ou ainda ser desclassificado.  Não acho ruim que a Comissão seja tão poderosa, uma situação inédita na Fórmula 1.

 

Jean-Marie Balestre

Se trabalharem direito, logicamente a disciplina vai melhorar. Se não, vai dar tudo errado. Balestre explicou que se o piloto vencer 10 corridas e na 11ª cometer uma falta, poderá perder todos os pontos.

 

O novo regulamento não vai me afetar em nada. Em 13 anos de Fórmula 1 não cometi nenhuma falta para ser chamado à atenção, mas vai ser muito difícil para a  Comissão, que está fora da pista, julgar o que acontece lá dentro. É claro que alguns pilotos precisam ser penalizados e também vai haver injustiça. A Comissão pode agir corretamente ou fazer muita besteira.

 

NotaJean-Marie Balestre, francês, acumula as presidências da Fédération Internationale de Sport Automobile (FISA), da Fédération Internationale de l’Automobilide (FIA) e da Comissão de Inquérito sobre Segurança, criada a partir do Campeonato de Formula 1 de 1991.

 

 

publicado em 10 de março de 1991

A noite do Recruta Zero

arte & desenho de Saulo Cruz

 

Esta crônica é inspirada em Hayle Gadelha, Henrique Caban, Caio Abreu e uma bela jornalista paulistana que não ouso dizer o nome.


Hayle Gadelha é meu compadre, meu amigo, companheiro dos tempos de redação da Veja.


Henrique Caban também era dos tempos da Veja, quando eu o detestava. Aprendi a gostar dele anos mais tarde, na redação de O Globo, no Rio.


O poeta Caio Abreu também foi meu colega na Veja, mas durante pouco tempo.


A bela jornalista era linda, é linda, está muito bem casada hoje. Eu apenas psicografei o texto, não tenho nada com isso.

 

Forte, gordo, baixote, mal humorado, mal educado. O perfil do editor de histórias em quadrinhos, Pedro Rodriguez Labaña, completava-se na barba rarefeita, no cigarro pendurado no canto da boca e a ponta de cinzas em misterioso equilíbrio até o instante final da batida no cinzeiro.

 

Labaña estava mais furioso que o normal naquela terça-feira. Da sala que ocupava ouviu-se o estrondo do soco na mesa. A secretária habituada aos acessos de raiva do chefe levou um susto. Os papéis que manuseava voaram pela ante-sala. Marli agachou-se para recolher notas fiscais e memorandos espalhados, ouviu a voz rouca do chefe, aos berros, acabando com a raça de Carlito, a frágil figura de jovem poeta que viu abrir-se no chão de tábua corrida as profundezas do abismo. Carlito enfim percebeu que Labaña não fora sensível à sua crise depressiva.

 

- Da próxima vez, porra, rasteje! Rasteje, entendeu, até a porra do telefone e avisa que não vem trabalhar. Avisa, porra!

 

Mais do que um bem sucedido empresário, Labaña lembrava algum personagem das histórias que publicava. Quem? Noites e noites de pesquisa, milhares de desenhos depois o roteirista Felipe abriu o código genético do patrão. Juntou os traços de três personagens para criar uma caricatura de Labaña. A tira foi um grande sucesso, ficou pouco tempo em cartaz e acabou triturada em pedacinhos no dia que Labaña, viciado em trabalho, abandonou inadiáveis tarefas para investigar o agito de risadas no corredor.

 

- Quem foi o filho da puta?

 

O esperto Felipe contratara o garoto Erivelto, 12 anos, filho da copeira Jovelina, por R$ 20 e a camisa 7 do Corinthians para uma missão ultra-secreta. Nem a mãe poderia saber. Quarta-feira de manhã, cedinho, quando não havia ninguém na redação, Erivelto pregou os desenhos no mural. Felipe criou a tira, armou a jogada de um álibi perfeito. Ele tornou-se invisível por uma semana, escapou estrategicamente de férias em visita à família dos pais em Ribeirão Preto para iludir a lógica cartesiana-ibero-lusitana de Labaña.

 

Se estava fora da cidade, não podia ser o Felipe, o culpado natural. O moleque da redação desta vez era inocente. Labaña compensava a carência de imaginação com disciplina de quartel e trabalho pesado. Era o homem de negócios, o senhor do dinheiro, pagava bem, extraía de seus escravos cada centavo de retorno da mais valia.

 

A história do pequeno chefão, de ascendência espanhola e origem familiar obscura, era misteriosa. Na redação da editora dizia-se que a mãe de Labaña era uma senhora bem conhecida, admirada por sua beleza em toda a Catalunha. O retrato no escritório do chefe confirmava os traços finos de seu lindo rosto. Foto do pai não havia. Nem foi possível detectar quem seria o progenitor do patrão entre as legiões de forasteiros da península ibérica.

 

A série de quadrinhos do Recruta Zero ilustrava no limite da perfeição a imagem de Pedro Rodriguez Labaña.

 

No primeiro quadrinho, o cozinheiro do quartel, gordo, de camiseta cavada, a barba mal feita, o cigarro pendurado no canto da boca.

 

No segundo, o sargento Tainha, gordo, com o dente canino à mostra.

 

No terceiro, o que mais irritou Labaña, vinha o simpático Otto, cachorro de estimação do sargento Tainha, um bull dog, também com o dente canino à mostra.

 

No quarto e último desenho, a síntese dos três personagens, Labaña, sorridente, exibia o dente canino. Um detalhe duplamente canino, três vezes cruel. Na vida real, o canino de Labaña aparecia nos momentos de irritação, nas caretas, isto é, o tempo todo. Se alguém o viu sorrir um dia não há registro confiável.

 

Uma noite de queijos e vinhos foi organizada às pressas para festejar no fim de semana o retorno de Felipe, o super-herói do mês. No conjunto da obra e no detalhe do canino de Oto/Tainha/Labaña, Felipe ganhou elogios, abraços, cumprimentos pela genial descoberta científica. O rastreamento genético de Labaña nas páginas do Recruta Zero significava um momento histórico.

 

Era a noite da desforra. A tristeza de Carlito desvaneceu, o poeta sentia-se vingado, suspirava felicidade ao assumir publicamente o romance com Rogério, desenhista, seu namorado firme há três anos, segredo muito bem guardado. A única que sabia, em todos os sórdidos e tumultuados detalhes, era a grande amiga Beatriz, a poderosa Beatriz, a bela, a gostosa, os peitos mais incríveis e a bunda mais bem desenhada de São Paulo, objeto do desejo atormentado de Labaña. A grande noite de revelações não terminou em rock e carnaval. Carlito e Rogério anunciaram o casamento marcado para o mês de maio.

 

- Mês das noivas, querida – lembrou Carlito.

 

O veado mais inteligente do pedaço, o talento literário que o bruto Labaña explorava, anunciou aos pais no mês anterior a grande surpresa: era homossexual e apresentou o futuro marido. Um episódio comovente. Os dois velhinhos, abraçados, em meio a uma torrente de lágrimas, aprovaram o sonhado enlace matrimonial do amado filho único. A vizinhança ainda não sabe se as fortes emoções foram provocadas por um profundo desgosto ou legítima euforia.

 

Bebidas e baseados rolavam frouxos na festança ao som de Tim Maia, Jorge Ben, Djavan, Caetano Veloso. ‘La Bamba’, de Trini Lopez, foi o grande sucesso da “Noite do Recruta Zero”, uma homenagem óbvia a Labaña. Tudo era divino, maravilhoso, Caetano cantava ‘Sozinho’. Carlito arrastou Rogério para dançar. O diáfano casal, de rostinho colado, flutuava no gazebo do jardim da casa de Beatriz, herança de um casamento ligeiro, sem filhos, com um milionário alemão.

 

Nuvens escuras mudaram o clima da festa. De rock, balada, labamba e carnaval o cenário da noite passou a funeral. Felipe anunciou a notícia ruim.

 

- Sujou rapaziada, sujou.

 

Quem apareceu de surpresa? Não, não era a polícia, e sim ele, o chefe insuportável. Labaña invadiu os jardins de Beatriz. Ele agora sorria, dente canino à mostra, saboreando o cardápio de maldades que aprontaria nas próximas semanas.

 

- Agora ele me pegou – murmurou Felipe.

 

O poeta Carlito apoiou-se nos braços do noivo Rogério para não desmaiar. Labaña o encarou com aqueles temidos olhinhos miúdos. Olhar que Beatriz odiava, zombava, desprezava. Uma cena inesquecível foi o dia em que Beatriz fechou os olhos à japonesa, colocou dentes de vampiro e imitou a voz rouca de Labaña, o sedutor desastrado:

 

- E aí, Bia, quando é que vou me dar bem?

 

Na vida real Beatriz respondia em silêncio. Ela fazia meia volta em direção à mesa de trabalho para desespero de Labaña, de olhos vidrados no suave movimento dos quadris da deusa da minha empresa. No teatro de improviso Beatriz detonava Labaña:

 

- No dia que você fizer uma faxina completa no corpo e no caráter! Nunca, ô babaca, nunca!

 

Labaña passeou uma visão panorâmica na ‘Noite do Recruta Zero’. Quem apostou em explosão de fúria perdeu todas as fichas. Ele virou o jogo, era o senhor da situação agora, aproximou-se dos desenhos em tamanho poster e armou uma careta. Chegou a hora e a vez de Labaña.

 

Felipe comentou para Beatriz.

 

- A barra pesou, é pesadíssima. Toda a equipe vai se ferrar. Todo mundo na rua.

 

O arquiteto da brincadeira inventou mais uma para descontrair o ambiente.

 

- É Beatrizinha, nunca a vida de tanta gente dependeu da sua bunda. Estamos nas suas mãos.

 

Felipe deu um tapinha no traseiro de Beatriz. Ele nem sabia o que falava, o que fazia, agia como um robô às vésperas de perder o excelente emprego. Adeus Nova Iorque, Peugeot conversível, jet ski em Maresias.

 

Beatriz sorriu, a ruguinha nos cantos da boca, o sorriso matador. Felipe o conhecia bem, amargou a fatídica visão em noites de pesadelos depois que Beatriz rompera o namoro. O tempo passou, cicatrizou a paixão ferida, eram bons amigos.

 

Beatriz colocou a taça de vinho na mesa, pegou Labaña pelo braço e convidou-o a analisar os posters.

 

- Tolinho, acho impossível você não gostar dos desenhos. A sua carinha está muito simpática, você ficou uma gracinha.

 

Os convidados ainda se recuperavam da chegada surpresa de Labaña, do gesto inesperado de Beatriz, quando a porta voz da bunda mais cobiçada da metrópole paulistana rapidamente encerrou a festa.

 

- Chega pessoal. Está ficando tarde. Vamos dormir, amanhã é outro dia, São Paulo não pode parar.

 

Labaña caminhou em direção à porta da sala, Beatriz impediu-lhe a passagem.

 

- Você não, você fica.

 

Na segunda-feira, Beatriz não apareceu na editora. Labaña chegou tarde, sorriu para Marli, elogiou seu novo penteado. Em seguida, passou pela mesa de Carlito, pediu para ler os originais de seu novo livro de poemas. Depois dirigiu-se à mesa de Felipe, piscou com aquele olhinho que Beatriz detestava e o convidou para uma reunião a sós na sala de conferências.

 

- O puto descobriu que fui eu. Estou na rua – pensou Felipe.

 

O roteirista genial errou, foi promovido a chefe da redação. Labaña investiu pesado no livro de poemas de Carlito, ‘Amoras Azedas’, e faturou um bom lucro no mais inacreditável sucesso editorial do ano. Labaña era um equívoco da natureza, mas sabia ganhar dinheiro.

 

Labaña largou o cigarro, apaixonou-se perdidamente por charutos. Beatriz não voltou ao trabalho na editora, dela ninguém mais soube notícias. Carlito ligou várias vezes para a casa de Beatriz, sem resposta, até que decidiu visitá-la. A mansão fora colocada à venda.
Um ano e meio depois, Felipe, Carlito, Rogério e outros malfeitores da editora Labaña receberam convites de uma festa de aniversário que talvez explicasse os extraordinários acontecimentos após a ‘Noite do Recruta Zero’.

 

Na foto do convite, Labaña, charuto na mão, o sorriso metálico de aparelho nos dentes, e a linda Beatriz, mais linda do que nunca, segurava no colo um bebê feio de assustar, a cara do pai.

 

publicado em 21 de agosto de 2007