A maldição de Phoenix

Nelson Piquet treina com a Benetton Ford em Silverstone - pintura de Jorge Eduardo Alves de Souza

 

 

Phoenix é uma pista estranha. Você não pode analisar o campeonato com base nesta corrida.

 

É verdade que a McLaren andou muito bem, mas não se pode fazer uma avaliação segura. Os McLaren são bons em curva de baixa velocidade, têm muita tração. Nas curvas de alta surgem as dificuldades.

 

Já a Ferrari sempre teve problemas de aceleração no torque em baixa rotação. Os motores têm potência lá em cima, em alta rotação. Como em Phoenix é tudo aceleração, você passa uma marcha e logo outra, a Ferrari se viu em apuros.

 

O que impressionou foi o Williams, um dos carros mais rápidos. Patrese e Mansell largaram mal, enfrentaram problemas mas andaram bem, apesar do erro de Patrese quando rodou. Eu pensei que o Tyrrell – de Modena e de Nakajima – pudesse andar melhor com o motorzão Honda V10 e o bom chassi do ano passado. Eles ficaram uma volta atrás de mim.

 

Nos treinos de sexta-feira o Benetton apresentou problemas de tração rodando de tanque vazio. Conseguimos melhorar. Na manhã de sábado rodamos com o tanque cheio e sol forte. Os pneus estavam ótimos. Conseguimos virar tempos mais rápidos. Eu estava feliz, mas Phoenix é uma pista que odeio. O traçado foi modificado com duas curvas de alta muito rápidas. Eu demorei a me acertar neste circuito.

 

À tarde, nos treinos de classificação, os primeiros jogos de pneus não foram muito bons. Lixamos os pneus. O Pirelli tem essa vantagem. O pneu roda apenas uma volta, os técnicos lixam, retiram a camada de borracha queimada e ainda se pode rodar mais uma volta. Na terceira volta o tempo baixou bastante. Eu cheguei a virar o quinto tempo. Domingo de manhã duas coisas saíram erradas. Primeira, com a menor potência do Ford V8 nós éramos mais lentos. Tiramos um pouquinho de asa para ganhar mais 4 ou 5 km de velocidade na reta a ponto de ultrapassar os adversários. A segunda coisa errada foi o dia amanhecer nublado. Aí o pneu Pirelli não funcionou. A Goodyear trocou o pneu tipo C, mais duro, pelo tipo D, mais macio. Era a temperatura ideal para usar o D. Tudo isso fez com o que o Benetton não fosse mais competitivo.

 

Ao final da corrida o Pirelli gastou apenas 0,5 mm da camada de borracha que tem 3,5 mm. Era um pneu duro naquelas condições. Se os pneus tivessem funcionado a conversa seria muito diferente. No sábado o Benetton virara 1m27s e pouco com o tanque completamente cheio. No domingo eu estava virando em torno de 1’29s, quase 2 segundos mais lento. Tudo isso porque caiu a temperatura, o pneu passou a não render tanto e eu tirei um pouco de asa. É uma diferença danada.

 

Na corrida, quando o Pirelli saía da trilha, a borracha sujava e o carro gastava duas a três voltas para recuperar a aderência. No instante em que o Alesi me atrapalhou, fui obrigado a passar por fora, na parte suja da pista. O Benetton começou a escorregar demais. O Prost aliviou o pé para economizar combustível. Se eu ultrapassasse o Alesi dava para segurar o Prost até o fim da corrida para garantir o segundo lugar. Alesi me disse que estava com problemas no câmbio. O Ferrari V12 consumiu muita gasolina, ele não tinha condições de terminar a corrida. Eu estava com 2 segundos de diferença à frente do Prost.

 

No acidente do Patrese eu consegui sair fora. Pensei logo no Moreno, que vinha 3 a 4 segundos atrás de mim. Vi a batida no retrovisor. Ali só livrava quem tirasse o pé. E poderia ter acontecido com qualquer um. Moreno andou muito bem nas provas de classificação, ajudou-me a acertar o Benetton e poderia somar alguns pontos se não fosse o choque com a Williams de Patrese.

 

Phoenix foi uma péssima corrida. Nosso resultado é que foi muito bom. De Phoenix viajo para a Inglaterra. Vou experimentar os bancos e pedais do novo Benetton, com estréia marcada para o Grande Prêmio de San Marino, em Imola.

 

publicado em 11 de março de 2007