O que há com a Ferrari?

Nelson Piquet treina com a Benetton Ford em Silverstone - pintura de Jorge Eduardo Alves de Souza

 

Quando passei o Prost na largada, fiquei surpreso: ele não conseguiu me superar logo em seguida. Berger foi abrindo um pouquinho mais. Ayrton abria 1 segundo e meio por volta. Nem o Berger  andava muito rápido, nem o Alesi ampliava os 6 ou 7 segundos à minha frente.

 

O box da Benetton me informava a posição dos outros pilotos pelo rádio. É um sistema novo que estreamos na corrida de Phoenix, um headphone que funciona com perfeição. Ouve-se tudo, sem interferência. Até parece que estou assistindo a corrida. E não me tira a concentração.

 

Calculei que se o Pirelli não se desgastasse muito, enquanto os outros carros parassem nos boxes para trocar pneus, eu seguiria até o final da corrida com o mesmo jogo. Mas ainda não conheço muito bem o comportamento do Pirelli e não há jeito de saber o desgaste quando se está na pista. Fiquei receoso de seguir em  frente sem  trocar os  pneus. O Benetton começou a escorregar muito e resolvi entrar no box. A decisão não foi correta. Se eu tivesse continuado, chegaria na frente da Ferrari do Prost. Eu não esperava que a Ferrari fizesse dois pit stops. Acreditei que com apenas uma troca, o Prost e o Alesi seguiriam até a última volta.

 

Foram dois erros. Primeiro, parar no box para trocar os pneus. Gastei 1 milímetro e pouco de pneu apenas. Segundo, se eu tivesse que fazer o pit stop, deveria ter programado a parada 10 voltas antes. A ameaça de chuva me fez hesitar. Quando finalmente troquei os pneus, em vez de ganhar, perdi tempo. Foram 22 segundos. Entrar e sair do box, diminuir a velocidade e acelerar de novo para voltar à pista.

 

Williams e McLaren passavam direto por mim. Quando o Patrese chegou junto no final do retão, eu não queria perder tempo e entrei ao lado dele. Se fiz isto não foi para dar o troco. Era ganhar tempo. Neste mesmo ponto da pista, no caso da ultrapassagem do Berger, de fato eu queria recuperar a posição. Mas ele veio para dentro da curva e não deu. Ele foi embora.

 

Depois da troca dos pneus, não virei 1 segundo mais rápido. Foram só 8 décimos de segundo. Na última volta, cheguei 6 ou 7 segundos depois  do Prost. A minha dúvida era se os pneus chegariam até lá. Se eles se desgastam a este ponto, em vez de se perder meio segundo, ou um segundo em cada volta, o atraso seria de 5 segundos. E ali fica difícil. Eu não estou culpando os pneus. O Pirelli foi muito bem. Faltou um pouquinho de experiência.

 

O Prost passou à minha frente e não foi possível recuperar a posição. O Alesi ficou para trás. Eu mantive um ritmo muito forte. Ele não conseguiu chegar. Na última volta, começou a chover e eu guiei com mais cuidado. Alesi cruzou a linha de chegada 1 segundo e pouco depois.

 

A classificação do Benetton em Interlagos foi mais positiva do que em Phoenix. O 5º lugar em São Paulo tem mais valor. A corrida aqui foi muito mais disputada. Com o carro antigo e o motor do ano passado, seis pontos nas duas primeiras provas é um resultado excelente.

 

A Ferrari foi decepcionante. Trabalharam tanto e estão ali disputando com a gente. McLaren e Williams colocam-se no mesmo nível. A diferença é o piloto. Nem o Mansell nem o Patrese estão à  altura de Ayrton. Eu só não entendo o que está acontecendo com o Berger.

 

A Tyrrel parece que se perdeu.  Eles devem estar com dificuldade no acerto do carro. O Tyrrell usa pneu Pirelli e o motor Honda V-10. Eles andaram bem o ano passado. Não há razão para um desempenho tão fraco.

 

Ainda tem muita água a passar pela ponte. A apresentação do novo Benetton está marcada para a próxima quinta-feira, dia 28. Moreno vai testar o carro na pista, rodar algumas  voltas para checar se tudo funciona. Vamos testá-lo para valer em Imola, de 2 a 5 de abril.

 

publicado em 25 de março de 1991