Uma linda mulher e o Rei do Gado

Tião Maia na sede da Lawn Hill Station, Australia - foto de John Andersen no livro "Bagmen Millionaires"

 

 

A história é real. Não é uma fábula. Nada tem a ver com o então presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, que a mídia brasileira apelidou de “Rei do Gado” por causa dos fabulosos rendimentos nas inacreditáveis fazendas de Alagoas.

 

O senador tentou explicar à opinião pública que a renda excepcional das fazendas alagonas sustentavam a amante, Monica Veloso, e a sua filha fora do casamento.

 

A história é outra, bem diferente. O único ponto em comum, o gênero feminino, é também o ponto fraco do pecuarista Tião Maia e do senador  Renan Calheiros.

 

O personagem é um autêntico monarca da pecuária de corte: o brasileiro Tião Maia (Passos, Minas Gerais, 1917 – São Paulo, São Paulo, 2005), proprietário de imensas fazendas na Austrália e investidor imobiliário nos Estados Unidos, principalmente em Las Vegas e Lake Tahoe.

 

Tarde ensolarada, céu azul límpido, um dia comum no deserto de Nevada, em Las Vegas. Tião Maia pegou a chave do Mercedes-Benz conversível, convidou-me a passear pela cidade. No meio do caminho buscaríamos o Rolls-Royce dele na oficina. O carro estava pronto. Tião batera forte, desmaiara, não se lembrava das circunstâncias do acidente. A frente do Rolls ficou bastante danificada. O conserto demorou meses.

 

A primeira parada do passeio foi na casa nova de uma de suas belas amigas, uma mansão de dois andares. O salão abria-se para o campo de golfe privativo do condomínio de luxo. A jovem amiga desceu a escada vestida de roupão. Moça de fino trato, recatada, correu para trocar de roupa logo que me viu. Eu achei prudente esperar no carro. Mais ou menos quinze minutos depois, Tião retornou ao meu encontro e contabilizou o custo-benefício.

 

– É uma bela menina, mas ficou muito cara. Andou conhecendo uns árabes e está sempre viajando para Paris. Só quer voar de Concorde.

 

Contornamos a periferia da cidade para conhecer novos bairros. Tião pensava em negócios até em dia de folga. Por que escolheu Las Vegas? No início era só um lugar tranqüilo para moradia e diversão 24 horas.

 

As chances de bons negócios surgiram naturalmente. Investir em cassino foi a opção imediata, mas desistiu ao conhecer o rigor da burocracia e o excesso de controles sobre os ganhos. O segundo passo foi aplicar em terrenos e na construção de casas e condomínios. A valorização das terras na região apresentara rendimento excepcional, contrariando as previsões pessimistas de seus amigos que preferiram construir em Houston, Texas, e conseguiram resultados bem inferiores.

 

A proximidade de Nevada com a Califórnia, o clima ameno durante todo o ano, livre de nevascas e sem interrupção das jornadas de trabalho, atraíram grandes corporações conectadas on line com as subsidiárias no território norte-americano e no mundo. O Estado de Nevada crescera mais do que a média nos Estados Unidos, impulsionada por Las Vegas, o novo pólo de desenvolvimento. A vida econômica da cidade não mais dependia de cassinos, turismo e shows.

 

Tião mostrou-me um terreno de esquina que comprara há dois anos por US$ 100 mil. Em apenas uma fração, vendida para a Texaco construir um posto de gasolina, ele lucrou US$ 500 mil. Sem contar que o posto Texaco agregou valor à área remanescente.

 

Tião filosofava sobre negócios e lazer.

 

– Duas coisas quebram um homem. Terra ruim e mulher boa. Eu só aumentei meu patrimônio em Las Vegas, lugar de terra ruim e mulher boa. Eu saio todas as noites. Se eu não quebrei até agora, eu não quebro nunca mais.

 

Já estávamos perto da oficina autorizada Rolls-Royce. Ao passar por um bar com mesas na calçada, Tião relembrou que naquela rua, guiando o Mercedes, vivera um episódio exemplar.

 

Uma loura, linda, parou no sinal ao seu lado, a bordo de um vistoso conversível. O instinto caçador atiçou-lhe a vontade de acelerar no encalço da louraça. Algumas quadras adiante, ela respondeu aos acenos, sorrisos e olhares. Ele sugeriu que retornassem para uma conversa no bar. A loura espetacular manobrou o carro e o seguiu. Mais rápido, Tião chegou na frente e a esperou diante da mesa para impressioná-la com o gesto de cortesia. A beleza loura apresentou-se, o coração de Tião disparou. A louraça espetáculo era imensa, obesa, sobrava mulher no vestidão folgado. Ela estava animadíssima, alegre, falante, cheia de amor para ofertar, e o sedutor arrependido buscava uma saída de emergência.

 

A parábola da loura big mac foi encerrada com uma lição.

 

– Eu não paquero mais uma mulher dentro de carro. A gente só conhece a mulher quando ela está de pé.

 

publicado em 13 de agosto de 2007

 

Triste Menina

foto José Augusto Assumpção

 

 

Eu a reconheci
em minhas visões,
ainda crianças,
passeando de mãos dadas.

 

Não foram ilusões.
Eram relembranças
de vidas passadas.

 

Tudo me parecia perfeito,
singular, inatingível
a tudo e a todos imune.

 

Eu subestimei
o poder letal do teu ciúme,
que nasceu depois,
explosivo, doentio.
Era fatal na vida a dois,
exauriste o leito do rio.

 

Eu perdoei, perdoo,
teus gestos absurdos,
mas não te desejo mais
e não te quero mal.

 

Apesar de tudo
não é ocaso
não é o ponto final
nada é acaso
nada é acidental.

 

Talvez seja o rito de passagem
e não delírios meus.
Talvez seja a encruzilhada
da eterna viagem.
Ninguém decifra
os desígnios de Deus.

 

publicado em 16 de março de 2007