Lições de veado em tupi-guarani

Bambi e o amigo coelhinho

 

Prezado amigo Carlos Brickmann,

 

Segue nota de esclarecimento sobre a ‘laboriosa comunidade chamada Veado’.

 

Nasci em Piraúba, Minas Gerais, mas residi em Alegre, Espírito Santo, desde 6 até 12 anos de idade, quando a minha família mudou-se para Brasília na década de 60. De fato, havia bem próximo de Alegre um povoado em que lia-se Alegre Veado, em alto-relevo, na parede da estação ferroviária. A companhia de eletricidade local detinha a concessão para fornecer energia a Alegre e a Veado.

 

Não sei exatamente quando o nome Veado foi trocado por Guaçuí. Em tupi-guarani, segundo o Dicionário de Silveira Bueno, professor emérito da USP, ‘guassu’ significa veado. A terminação ‘y’ funciona como advérbio, ainda segundo o professor Silveira Bueno. E também pode significar rio, cobra, ou grande, de acordo com o ‘Diccionário da Língua Tupy – chamada Língua Geral dos Indígenas do Brazil’, publicado na Áustria, em 1858, de autoria do poeta Gonçalves Dias. Para minha felicidade, eu tenho um exemplar do ‘Diccionário de Gonçalves Dias’, reeditado em 1970, fielmente, pela Livraria São José.

 

Quando menino soube que ‘Guaçuí’ era a antiga ‘Veado’ porque havia muitos veados por lá. Estou falando do bicho, do animal, dos parentes do Bambi.

 

Eu ignorava as conexões do tenente Siqueira Campos com Veado/Guaçuí/Alegre. Na época, veado significava apenas o simpático quadrúpede, sem a conotação de hoje. A situação ficou ainda mais estranha quando nós, brasileiros, copiando os norte-americanos, passamos a usar a palavra gay – alegre, divertido – como sinônimo de homossexual. O avião que bombardeou Hiroshima foi batizado com o nome e o apelido da mãe do comandante: Enola Gay.

 

Se eu me lembro bem, quando morei em Alegre, havia um ou dois gays conhecidos. Nasceram em Alegre, não vieram de Guaçuí. Não eram assumidos, nem precisavam. Os trejeitos demonstravam com muita clareza suas preferências. A população não os hostilizava e não havia desrespeito. O alegrense é tolerante, bem educado. Eu não sei hoje o que nos informa o último censo da cidade, mas, apesar de não procriarem, a população de gays na região talvez tenha aumentado. O fenômeno é planetário. Por que seria diferente em Alegre, próxima de Guaçuí?

 

Jornal do Grande ABC, São Paulo – coluna de Carlos Brickmann, edição de 4 de abril de 2007

 

“Velha história…

 

A frase do ministro Carlos Lupi, de que foi investigado mas não houve problemas, porque não é corno nem gosta de pessoas do mesmo sexo, fez sucesso. Esta coluna relembrou um dito da falecida deputada Conceição da Costa Neves, uma lenda no Legislativa paulista, segundo a qual todo político era corno, veado ou ladrão. O leitor Jorge Hóri completa a história: Conceição, diz, apenas parafraseou uma frase de Siqueira Campos, um dos comandantes da revolução de 30.

 

Mas o curioso é o que aconteceu em seguida: no Sul do Espírito Santo, havia uma laboriosa comunidade chamada Veado. A população se cansou das piadas e trocou o nome da cidade para Siqueira Campos. Na época, não havia CEP, nada dessas modernidades; e o Correio, para evitar erros, identificava a cidadezinha como “Siqueira Campos, ex-Veado”. Os fãs de Siqueira Campos, homem extremamente popular, brigaram até que a cidade mudou novamente de nome.”

 

publicado em 7 de abril de 2007

Fábulas fazendárias do senador Calheiros

Georget, fazenda Água Fria, Santo Antonio do Descoberto, Goiás - foto Alceu

 

 

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-Alagoas), reafirma convicção sobre seus “rendimentos agropecuários” que garantiam a mesada de R$ 16.000,00 para a  jornalista Mônica Veloso, mãe de sua filha fora do casamento.

 

A origem do dinheiro seria legítima porque as fazendas alagoanas do senador Calheiros registram altíssima produtividade.

 

Por que não perguntar a quem conhece o assunto? Sim, quem entende de boi é fazendeiro.

 

O senador Renan Calheiros é a bola da vez, a última piada por esse Brasil afora no fim de tarde nos alpendres das fazendas e nas rodas de bate-papo de pecuaristas.

 

A conta não fecha. Nem que a vaca tussa.

 

Um amigo meu, engenheiro civil, empresário, é também fazendeiro em Carlos Chagas, região leste de Minas Gerais. A propriedade é um primor de organização, de terra boa e capim excelente. O boi engorda com facilidade.

 

Fazenda bem administrada, a capacidade de produção foi limitada em 600 cabeças para não detonar as pastagens. O escritório acompanha diariamente a cotação da arroba do boi para vender na melhor época ao frigorífico de Carlos Chagas, que tem uma linha de exportação para Israel, paga os melhores preços e ainda vai buscar o gado na porteira.

 

Eu perguntei a ele – já sabendo a resposta – sobre a produtividade das fazendas do senador: 1.700 cabeças, lucro líquido de 1 milhão e 900 mil reais nos últimos quatro anos, de 2003 a 2006.

 

– Impossível – disse de bate-pronto.

 

Meu amigo acompanhou o noticiário sobre os “rendimentos agropecuários” de Renan Calheiros e achou muito estranha a declaração do gerente da fazenda. O capataz informou à reportagem do Jornal Nacional da Rede Globo que havia 1.100 cabeças. O senador desautorizou a informação. O total soma 1.700. A diferença atinge 600 cabeças, todo o gado da fazenda de Carlos Chagas.

 

– Gerente não sabe quantas cabeças de gado tem na fazenda? O senador, que vive em Brasília e raramente vai à fazenda, sabe mais do que o gerente? Tem coisa errada. Gerente sabe esse número na ponta da língua. É a profissão dele que está em jogo. Se há divergência entre o senador e o gerente, a administração é precária. Vender essa quantidade de gado para açougue? Pecuarista só vende para açougue o boi que sofreu acidente, foi sacrificado. A venda é a preço vil, sem recibo. Açougue vai dar recibo por um, dois bois? Se há esse movimento todo na fazenda do senador não faz sentido que as vendas sejam feitas para açougue.

 

Agora eu peço licença para contar a minha experiência. Eu trabalhei dois anos – duas temporadas de seis meses – em Queensland, Austrália, na administração do escritório da gigantesca Lawn Hill Station, a fazenda do lendário pecuarista Tião Maia.

 

Apesar de ter sido em 1988 – quase duas décadas se passaram – a análise não perdeu prazo de validade.

 

O gado australiano vale 3 vezes mais, em dólar, do que o boi brasileiro. A exportação de carne australiana concentra-se em dois mercados que pagam os melhores preços do mundo: Estados Unidos e Japão.

 

A fazenda de Tião, latifúndio de 1 milhão de hectares, estava no fundo de poço se considerarmos a quantidade de bois, vacas e bezerros nos retiros. Eram 20.054 cabeças quando ali caberiam mais de 100 mil.

 

Tião estava reformando o rebanho, substituindo a raça Short Horn, australiana, pelo gado indiano desenvolvido nos Estados Unidos, o Brahma, parente do Nelore, que é o mesmo animal das fazendas do senador Renan Calheiros.

 

Eu vi, ninguém me contou. Sabem qual foi o lucro de Tião ao final da temporada de 1988?

 

Ele apresentou-me as contas sorridente, orgulhoso:

 

- 500 mil dólares australianos.

 

O lucro líquido de Tião Maia na fazenda de 20 mil cabeças – quase 12 vezes mais que o rebanho de Renan –, vendendo o gado que precisava ser descartado, foi o equivalente a 900 mil reais.

 

Senador Renan Calheiros, conte outra história. “Rendimento agropecuário” em Alagoas é conversa para boi dormir, uma tentativa tosca de iludir a opinião pública.


publicado em 18 de junho de 2007