Falsa democracia racial

Nívia Helen – foto Eduardo Teixeira

 

Filha de pai negro, brasileiro, primeiro-tenente do Exército, e de mãe branca, boliviana, com sobrenome de solteira espanhol, Román, a atriz de tv, cinema e teatro Nívia Helen Román de Sousa considera-se cem por cento negra.

 

Ela nasceu em Cáceres, Mato Grosso, e ainda bebê foi para o Rio de Janeiro. No ginásio, participava de um grupo de teatro. Quando se preparava para sua primeira excursão, o pai foi transferido para Recife.

 

Estudou um semestre de licenciatura em Artes Cênicas na Universidade Federal de Pernambuco, o único curso disponível na área de teatro. Em 1988, a família mudou-se para Brasília. Nívia concluiu na UnB a licenciatura em Educação Artística e a habilitação em Artes Cênicas. Aos 33 anos, depois de atuar na novela ‘Laços de Família’, da Rede Globo, Nívia Helen passou a integrar o grupo de teatro da peça ‘Os Negros’, formado exclusivamente por atores negros, 8 homens e 5 mulheres, dirigidos por Luiz Antonio Pilar.

 

Em abril de 2005, ‘Os Negros’ estreou no Teatro 1 do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Foram três meses de casa lotada, sucesso de público que também surpreendeu a crítica mais exigente. Bárbara Heliodora escreveu em O Globo, em 10/4/2005: “… como em qualquer outro elenco tão numeroso, há contribuiuções pessoais de maior ou menor rendimento. O conjunto, no entanto, alcança resultado tão gratificante que seria injusto destacar nomes em um trabalho que obviamente engaja tão apaixonadamente a todos. Se não fizesse mais nada (e faz) ‘Os Negros’ acaba com o mito de que não temos atores negros no Brasil, e esse grupo oferece um ótimo espetáculo.”

 

A peça foi não foi escrita por um negro e sim por um branco, Jean Genet (1910-1986), gênio rebelde da intelectualidade francesa, que escreveu sua primeira peça, ‘Nossa Senhora das Flores’, em 1944, na penitenciária, atraindo a atenção do poeta e cineasta Jean Cocteau e do filósofo Jean-Paul Sartre. Cinco anos depois, Genet escandalizou a sociedade da época com a peça ‘Diário de um ladrão’ ao assumir abertamente que era ladrão, homossexual e prostituto.

 

A condição de um elenco negro foi considerada essencial por Jean Genet. O diretor Luiz Antônio Pilar, que esperou 11 anos para encenar ‘Os Negros’, aponta um aspecto irônico dessa montagem: cinco dos 13 atores fazem papel de brancos.

 

“Aqui sempre tivemos atores brancos fazendo tipos negros ou mulatos”, citando Sérgio Cardoso em ‘A cabana do Pai Tomás”, e Zezé Polessa no papel de Elza Soares.

 

Nos dias 9 e 10 de setembro de 2007 (sexta e sábado), ‘Os Negros” abre o Festival de Teatro de Porto Alegre com uma presença ilustre na platéia, o inglês Peter Brook, célebre ator e diretor de teatro, que já montou ‘O Balcão”, de Genet.

 

Nívia Helen sente-se lisonjeada com as palavras de Bárbara Heliodora, com os elogios de um ícone do teatro brasileiro, Sérgio Britto – “em sessenta anos de teatro eu nunca tinha visto um grupo negro fazer um trabalho tão bom”. Sente-se ansiosa com a presença de Peter Brook na plateia, mas critica o que considera a pseudo-democracia racial no Brasil.

 

Ela discorda da tese de que somos um país sem discriminação. Nívia Helen acredita que os negros precisam aproveitar todos os espaços, as oportunidades, as cotas etc, trabalhar muito, e trabalhar bem, para finalmente ocupar o lugar que merecem na sociedade brasileira, sem a necessidade de exercerem o papel secundário em estratégias politicamente corretas. Ainda falta muito, segundo a atriz.

 

Nívia Helen nunca sentiu-se vítima de preconceito. As oportunidades de trabalho no teatro, cinema e tv surgiram naturalmente.

 

“O preconceito racial jamais aconteceu como uma ação direcionada a mim, mas nas situações que vivemos, nos ambientes que frequentamos, o racismo está sempre permeando os fatos. E isso magoa. Se você é negro, você também vive essa discriminação com os outros negros. É uma falsa democracia racial. A verdade é que não existe democracia racial no Brasil. Se você nasce negro e feio, você é o crioulo, o neguinho. Agora, se você nasce negra e bonita, por exemplo, é outra reação: Que morena! É uma coisa suave para o lado de um negro bonito. É mais discreta.”

 

Cota para negros é desculpa

Nívia pensa que o sistema de cotas para negros ingressarem no ensino superior, embora seja um fator positivo, não passa de uma desculpa. A raça negra é o segmento da população que menos teve acesso ao ensino público de boa qualidade.

 

Ela reconhece que o governo Fernando Henrique foi o período em que os negros mais conquistaram espaços. Era uma decisão oficial, e não uma escolha dos produtores de tv e cinema, para que sempre houvesse atores e atrizes negros na publicidade do Governo Federal, o maior anunciante do País.

 

Em 1998, o então presidente, entrevistado pelo jornalista Roberto Pompeu de Toledo (‘O Presidente segundo o sociólogo”, editora Companhia das Letras) confirma o que Nívia vivencia no cotidiano.

 

“A mentalidade da classe dominante no Brasil – disse Fernando Henrique – e não só a tradicional, porque a nova incorpora esses valores, não é democrática. É hipócrita. Até permite uma aparência de proximidade porque, na verdade, há uma enorme distância.”

 

A atriz sustenta o que disse o ex presidente.

 

“Hoje em dia existe vemos essa modernidade. É moda colocar um negro na tevê, nas revistas, nas fotos, vendendo produtos, o que não acontecia antes. Não havia nenhuma referência negra na tevê. Nos anos 70, a tv brasileira era mais branca do que a tevê da Dinamarca. Por exemplo, eu queria ser atriz desde criança e não via atores negros de destaque na tevê. Não tinha uma professora negra, não tinha um negro no poder. Isso influencia demais se você não tem uma referência, não existe em quem se espelhar. Você acha que está fora da sociedade, é uma coisa à parte. Mas não é assim, a gente está aqui, é maioria. Agora é um bom momento de dar a volta por cima. Eu me pergunto: por que só agora? É um momento propício, mas para quem? Para quem comanda a mídia, para quem está no poder? Ou para nós mesmos, os negros? É necessário batalhar o tempo todo, em qualquer brecha que aparecer.” Na tevê existe uma porcentagem de negros que tem que ser contratada em cada produção. É lei”.

 

Se é modismo ou ocasião, sorte ou acaso, Nívia Helen sempre recebeu convites para atuar. Aos 20 anos, ela começou fazendo anúncios do Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF) e não parou mais. A partir dos anúncios do Sinpro, apresentou programas de tv, fez campanhas políticas regionais – no Distrito Federal para Cristovam Buarque – e nacionais para Fernando Henrique Cardoso.

 

“Obviamente, eu mereço, é toda a minha carreira. Já são dezenove anos de trabalho, mas teria sido muito mais fácil se um autor não precisasse escrever no perfil dos seus personagens: eu quero uma diretora de escola negra porque na minha novela vai ter uma família negra. Se o autor escrever: eu quero uma diretora de escola, será uma atriz branca. Para incluir uma atriz negra talvez seja necessário criar todo um núcleo negro na história. Se não estiver escrito no roteiro que o ator é negro, não vai ser.”

 

Banho de Lua, branca como a neve

Nem sempre funciona assim. Não foi o caso da recente novela da Rede Globo, no horário da 19 horas “A lua me disse”, escrita por Miguel Falabela. A maioria dos atores seria negra, se dependesse da vontade do autor.

 

“Houve essa polêmica de que a maioria dos atores iria ser negra e no final são apenas seis ou sete atores negros na novela. Soube que o Falabela ficou chateado com isso, mas não sei o que houve dentro da emissora para que os planos mudassem. Acho uma pena. No atual momento, quando se debate a igualdade racial no país, tornou-se muito bonitinho convidar os negros para estarem na mídia, para aparecer na tevê. Não acho que é falta de merecimento, de jeito nenhum. São poucos os que conseguiram chegar ao patamar de bonitinho para ser chamado. É algo deliberado. Ah, deixa eu ser bonzinho, mostrar que estou dentro das leis. Como se dissesse: eu não tenho preconceito, mas o preconceito existe. Da forma que é feito, existe sim. Ninguém nunca me mandou ir pelo elevador de serviço, por exemplo, mas estou sempre bem-vestida. Eu não sou a negrinha, a crioulinha que eles dizem quando a mulher é feia, quando é uma negra feia. Nunca me mandaram para o final da fila no banco, nunca me olharam com suspeita que eu roubaria uma loja, mas muitos amigos meus já passaram por essa situação. Há algum tempo fiz um teste para um comercial de uma construtora. Várias pessoas concorreram. Fui com as minhas amigas, que também fizeram o teste. Elas falaram: “É claro que vai ser você, Nívia.” Eu falei: “Não, acho que não. Nenhuma construtora quer passar a idéia de mulher chique morando em prédio maravilhoso como uma mulher negra. Acho que eles vão preferir uma loura, linda, maravilhosa.” Você já viu uma mulher negra, chiquérrima, para em comercial de construtora de prédio familiar, maravilhoso? Uma das meninas que estava fazendo o teste falou assim: “Imagina, mas você não é negra, você é morena!”

 

Orgulho de ser negra

Nívia Helen não sofre de crise de identidade por causa da pele. Ela assume por inteiro a negritude, orgulha-se de ser negra.

 

“São por esses detalhes que se percebe o inconsciente da população brasileira. É óbvio que é o preconceito é uma questão histórica, passada de geração a geração. Até entre os negros percebe-se a diferenciação. Minha empregada é negra como eu, mas não aceita receber ordem minha. Outro exemplo. A atriz negra Iléa Ferraz, que faz o papel de uma escrava na novela ‘Chica da Silva’, da rede SBT, comprou um pão doce, maravilhoso, e o ofereceu para uma mendiga na rua. Só que essa mendiga via a novela. Ela disse: “O quê? Uma escrava me dar comida? Não quero!”

 

Na peça “Os Negros” há um evidente demonstração de ódio contra a hegemonia dos brancos, o que poderia ser o reverso da moeda: o racismo negro. O núcleo da história é o assassinato de uma branca por seu amante negro. Uma das personagens acusa o negro de assassinar a branca não pelo ódio, mas pelo amor que sentia por ela, pela sensação de poder que ela lhe trazia. Ao final, no duelo entre brancos e negros, a hegemonia branca, baseada na religião, é ridicularizada. Os negros vencem, são os melhores.

 

“Acredito que o texto do Genet” – diz Nívia – “usando negros, e negros mascarados de branco, passe isso. A agressividade do texto não é dos negros. É do autor. Genet fala da condição humana, de dominados e dominadores. Ao usar o negro nesta situação, ele refletia o momento histórico da França, na Revolução Francesa, ou na época que o autor escreveu a peça, criticando a colonização francesa na África. A peça não foi reinterpretada pelo diretor. Está encenada exatamente como foi escrita no original de Jean Genet. A tradução de Fátima Saadi é bem fiel ao texto. Se um negro fosse o autor, a impressão de ódio, de vitória da raça negra, seria mais apropriada porque a peça é de fato violenta. Como o texto é falado por negros, e de negros fantasiados de brancos, parece uma estamos falando só de racismo. Inconscientemente, a conquista de uma mulher branca resulta em poder para o negro, aumenta seu status. É o que vem ocorrendo ao longo da história, está enraizado na raça negra. Não é planejado: vou namorar uma branca, uma loura, porque assim eu vou ser melhor na sociedade. Não, é inconsciente mesmo. Está claro que a origem de tudo isso é a escravidão.”

 

Nívia esperava mais do Governo Lula na questão do racismo. Entre José Serra e Lula, votou em Lula, mas está muito mal impressionada com os rumos do atual governo. Apesar do presidente Lula dizer-se de ascendência negra, ela desconfia.

 

“No Brasil há tanta miscigenação, tantos mestiços, que é difícil confirmar quando uma pessoa se diz da raça negra. Na verdade, é o tom de pele que recebe as agressões. Dizer-se negro é muito pouco. Só sabe mesmo quem é. A viagem de Lula a países africanos foi interessante. Ele assumiu a dívida do Brasil, nação escravocrata, com a raça negra, mas na realidade, para nós, negros, nada está acontecendo neste atual Governo.”

 

publicado em 19 de março de 2007

 

Falso juízo brilhante

Bons tempos do governador Arruda no poder - foto José Cruz

 

 

Escrevi o artigo/discurso para o senador José Roberto Arrruda, líder do Governo Fernando Henrique Cardoso, em 23 de agosto de 2000, seguindo a orientação da Secretaria de Comunicação (Secom) da Presidência da República.

 

Arruda nunca o leu na tribuna do Senado, ou enviou para publicar em algum livro ou jornal. Não tive mais nenhuma notícia deste artigo/discurso chamado de Falso Juízo Brilhante.

 

Falso Juízo Brilhante

 

“Agir em defesa do Ministério Público é um dever de todos os brasileiros. Governo, imprensa, oposição, opinião pública, eleitores, todos nós temos a obrigação moral de defender o Ministério Público, uma instituição que representa um formidável avanço no aperfeiçoamento da sociedade, na melhoria do sistema democrático, na transformação necessária e urgente que pretendemos fazer em nosso País.

 

No limiar de um novo milênio, o Ministério Público está mesclando conhecimento jurídico com juventude, o que resulta numa variável inovadora, admirável, inédita na história republicana, que é a indignação eloqüente contra a elite corrupta e a injustiça social.

 

Se não reconhecermos a importância desse momento histórico corremos o risco de nos expormos a um erro talvez irreparável. Se não atentarmos para a oportunidade ímpar que se apresenta, estaremos retrocedendo no processo de consolidação das instituições democráticas. O que vivemos agora pode ser a única chance do Brasil passar a limpo 500 anos de acumulação de riqueza mal distribuída, de mazelas na condução das políticas públicas, de preconceitos e injustiça social.

 

O ilustre deputado federal José Genoíno (PT-São Paulo), um dos mais combativos parlamentares da oposição, respeitado pela clareza de suas idéias e pelo seu espírito público, comete pelo menos três equívocos em seu recente artigo na edição do Correio Braziliense de terça-feira, dia 16 de agosto de 2000.

 

Primeiro, ele acusa “alguns governistas” de tentarem “calar e restringir a ação de alguns procuradores” do Ministério Público.

 

O segundo erro que o deputado incorre é a defesa intransigente de falhas gravíssimas dos procuradores, as quais ele minimiza classificando-as de “pontuais”. Não foram desacertos “pontuais”, mas eu os considero menos importantes frente ao perigo que ameaça o sistema democrático a ação impetuosa, às vezes irrefletida e inconseqüente, de alguns membros do Ministério Público, que o deputado José Genoíno apóia com tamanho ardor.

 

O terceiro falso juízo que o brilhante deputado Genoíno perpetra – o mais pernicioso para a democracia, e do qual ele mesmo não se dá conta – é o de elevar o Partido dos Trabalhadores ao Olimpo da moralidade pública.

 

O PT, segundo Genoíno, é o símbolo imaculado do trato correto com a coisa pública. Não há justiça, não há correção, não há dignidade fora do universo do PT. No entender do deputado José Genoíno, a atitude do Ministério Público naturalmente deve estar entrelaçada com as ações do Partido dos Trabalhadores.

 

Genoíno vai além e lança subliminarmente uma palavra de ordem: a Imprensa que não apoiar esse pacto está agindo em contrário à força de transformação da sociedade que desejamos passar a limpo.

 

Cria-se então o círculo vicioso de um partido político, uma instituição de defesa da ordem jurídica e uma parcela importante e poderosa da sociedade civil. Ao final, apresenta-se o discurso maniqueísta em que todo o mal emana do poder constituído, que o governo está contaminado e que todos os políticos são devassos. O vetor que resulta de tal círculo vicioso é a conspiração, não contra o Governo, mas contra o Estado, contra a própria sociedade que os integrantes de tal aliança imaginam estar protegendo.

 

Ao caminhar de braços dados com um partido político, o Ministério Público tece a trama contra o Estado com o objetivo de extirpar-lhe a legitimidade. Entretanto, a parceria com o PT arrebata do Ministério Público o bem que lhe é mais precioso: a credibilidade. Por uma cruel ironia, PT e MP, unidos, semeiam a esmo a erva daninha – a tese neoliberal do Estado Mínimo, que o PT combate – sonhando que cultivam em terra fértil a boa semente.

 

É preciso apenas que o Ministério Público trabalhe com o mesmo empenho e conhecimento de causa, com equilíbrio, bom senso e responsabilidade, sob o rigor dos mais elevados princípios éticos, mas sem liames com o ideário específico de um partido político.

 

Não advogo para os procuradores a coerção ou a imposição de limites no exercício de sua função.

 

O Ministério Público deve ser livre para realizar a sua missão constitucional. Se o limitarmos por força de lei, assim também estaremos ferindo os princípios democráticos.
Creio na essência da democracia, na energia criadora da liberdade. Se porventura há excessos, o sistema democrático por si só disporá de vigor e sabedoria para conciliá-los e corrigi-los. Assim sendo, em vez do círculo vicioso da maquinação contra o Estado, o Brasil aprenderá a viver no círculo virtuoso da liberdade democrática.”

 


escrito em 23 de agosto de 2000