Elogio da Incoerência – 2

 

A verdade não importa
se o político mente.
O eleitor é mais um palhaço,
zero vírgula zero,
na grande arena circense.

 

A mídia distorce o fato,
impunemente,
o público não quer notícia
e sim o sangue jorrando, quente.

 

Partidos, sindicatos, movimentos,
o que corre por fora
não é o que rola por dentro.

 

O juiz simula a justiça,
o advogado faz jogo de cena,
pois vale o que está nos autos,
não importa qual o cliente:
o bandido Beira Mar,
o senador Jader Barbalho,
ou algum indigente.
No teatro dos tribunais
a pantomina parece conseqüente.

 

Pais, filhos, irmãos, família,
o álbum de retrato inocente
é aparente.
Repúblicas, impérios, reinados,
bastidores e palcos divergentes.

 

Palavras e gestos,
atos e fatos,
de homens e mulheres,
jamais são coincidentes.

 

Senhoras e senhores,
jovens e velhos,
santos e malfeitores,
todos os seres viventes,
em verdade lhes digo
que o planeta é demente.

 

Os movimentos estelares
são incompreensíveis,
imprevisíveis,
afetam não se sabe como
nossos corações e mentes.

 

Por que eu?
que não sou Deus,
apenas mais um filho
e ao Pai sou temente,
por que eu?
logo eu?
tenho que ser diferente?

 

escrito em 8 de janeiro de 2004

 

publicado em 19 de agosto de 2007

Sexo e burocracia

foto Atlantis Divers

 

 

Na década de 1980, doutor Claudio, meu amigo, criou um projeto de atendimento médico para a ilha de Fernando de Noronha e o apresentou ao então governador, jornalista Fernando Mesquita.

 

O projeto foi aprovado, Claudio mudou-se de mala e cuia para residir um ano em Fernando de Noronha, acompanhado da mulher, assistente social.

 

A maioria do pessoal civil da ilha é de pescadores. Metade dessa população bebe quase todas, um dia sim e o outro também.

 

Mané Encrenquinha é o alcoólico mais famoso da ilha. Ao final do expediente, a mulher do doutor Claudio chegou em casa com a novidade da reclamação da celebridade local ao Serviço de Assistência Social.

 

Ele sentou-se à mesa de atendimento. A funcionária preparou-se para anotar a reivindicação do senhor Manoel.

 

- Tem dezessete anos que a minha mulher me põe galho com o vizinho e o Governo não faz nada.

 

publicado em 23 de julho de 2007