O casório do gigante gay

 

 

Já resisti a convites de festas, eventos etc, mas depois eu até pagaria ingresso para estar presente e assistir tudo de novo.

 

Era de casamento. Eu me cansara da monotonia da cerimônia, por mais que os noivos e a família inventassem atrações, investissem em bailes, jantares, bebidas, petiscos.

 

Eu não queria ir, mesmo. Juliana, minha mulher à época, médica de um hospital público em Brasília, alertou-me que o noivo era gay. Eu questionei: “Se o cidadão é gay, casar por que?

 

O noivo era diretor influente do hospital. Aceitar o convite era uma imposição profissional. Ela não poderia faltar, eu teria de acompanhá-la. Ela explicou que o tal diretor nunca assumira ser homossexual, apesar do estilo e do layout. Até agora nenhum indício, nenhum fato explícito.

 

O casamento lhe convinha por razões estritamente políticas. Ligado ao grupo de militância do então poderoso senador José Roberto Arruda, líder do governo do presidente Fernando Henrique, o diretor foi aconselhado a um matrimônio com pompa e circunstância para entrar de cabeça na vida partidária, ser candidado a deputado distrital em Brasília.

 

Juliana estava curiosa para assistir a cerimônia. As ultimas edições da Rádio Ambulatório informavam que o noivo providenciara tudo, cuidara de todos os detalhes. A ordem era gastança, nada de cortar custos.

 

Lá vou eu para a Catedral Dom Bosco.

 

Fitas de seda vermelha separavam os convidados da área do corredor reservado para a caminhada da noiva, que começava na imensa porta da entrada principal e terminava no altar.

 

Flores e folhagens ocupavam todo o espaço possível da gigantesca nave. O cenário lembrava um jardim botânico. Eu espreitava por entre os arranjos florais se apareceriam cervos, garças, coelhos, gazelas.

 

Do lado direito do altar, a banda de música eletrônica encantava os convidados ao som de violino, guitarra, baixo e bateria.

 

Quatro câmeras de video registravam cada detalhe do evento.

 

O noivo chegou ao altar. Eu nunca o vira antes. O nubente era imenso, medidas extremas nos sentidos vertical e horizontal. Dois metros de altura, envergadura de lutador de sumô.

 

Rosto retangular, cabelos cortados bem curtos, olhos miúdos. O arquétipo de um marine, fuzileiro naval norte-americano, não fosse a fisionomia tristonha de criança abandonada. Pareceu-me uma alma sensível, vocacionada para grandes gestos humanitários.

 

Na roupa do noivo deveria haver um detalhe diferente. Procurei, e havia. No fraque desenhado por algum alfaiate indiano, a gravata imitava uma faixa presidencial debruçada na camisa de franjas. Com essa indumentária, ele estava pronto para casar e/ou desfilar na comissão de frente de uma escola de samba.

 

A noiva apareceu na entrada da catedral. Pequenina, gordinha, quarenta anos de espera pelo grande dia, fez uma dieta brutal para entrar no vestido costurado sob medida. O sorriso iluminado da baixinha era o oposto da melancolia do noivo.

 

Mais surpresas. Uma bailarina com uma saia bem curta, cor de rosa, entrou rodopiando pelo corredor reservado à estrela do evento ao som de uma valsa/salsa/forró. Ao final do redemoinho, inclinou-se frente à noiva, fez uma gentil mesura e entregou-lhe um bouquet adornado com fitas multicoloridas.

 

A noiva iniciou a caminhada fatal. O casal de pagens seguiu à frente em roupas de veludo, no rigor da moda renascentista, amortizando no calor da catedral os futuros pecados da adolescência.

 

Mais sustos. As trombetas soaram. Era a segunda onda da coreografia. Vestidos para enfrentar um inverno suíço, os trombeteiros suavam para soprar o acorde em volume altíssimo, em decibéis que despertariam um doente no leito de morte. Caminhavam em passo marcial, as trombetas enfeitadas de bandeirolas vermelhas com figuras de leões  e línguas de fogo bordadas em dourado.

 

Atrás da noiva, um batalhão de assistentes cuidava de enrolar e desenrolar a imensa cauda do vestido no cortejo até os pés de altar. Deus é misericordioso. As trombetas silenciaram assim que a noiva pisou o primeiro degrau.

 

Mais um momento de emoção. O pai do noivo, que abandonou a família quando o gigante ainda era menino, subiu ao altar para abraçar o querido filho tão distante. O gigante não conteve a torrente de lágrimas.

 

A cerimônia vai começar.

 

O padre leu passagens da Bíblia, enumerou conselhos que ninguém prestou atenção. Chegou o momento mais esperado, o solene compromisso do matrimônio que nenhum deles cumprirá ao pé da letra… amar, respeitar, cuidar na saúde e na doença até que a morte os separe etc

 

A noiva falou primeiro.

 

- Você promete – disse o celebrante – fazer isso, isso e mais isso…

 

A noiva sorridente olhou nos olhos no seu amor definitivo, ansiosa para livrar-se de toda aquela roupa e iniciar logo a lua de mel.

 

- Quero muito!

 

Na vez do noivo, o gigante segurou as mãos da amada a quem prometera ser fiel até a morte e respondeu à pergunta do sacerdote:

 

- Com certeza…

 

E foram felizes para sempre?

 

Não, o curso da história seguiu outros caminhos:

 

1) a lua de mel foi um desastre;

 

2) o gigante e a baixinha separaram-se alguns meses depois;

 

3) as ambições políticas do seguidor de Arruda acumulam poeira no arquivos do Tribunal Regional Eleitoral.

 

 

publicado em 29 de abril de 2012

 

Plural Majestático

Carnaval no Rio de Janeiro, Ano da Graça de 2012

 

No final da década de 1970, eu morava no Alto da Boa Vista, Rio de Janeiro. De uma praça plantada em meio a uma frondosa figueira, frente a uma pequena igreja, a vista era fascinante.

 

Nos fins de semana, a praça Martins Leão acolhia hordas de turistas extasiados para ver, fotografar, toda a extensão da orla da Barra da Tijuca. Seguindo à direita da praça, por um suave declive, chegava-se ao meu refúgio, o apartamento no prédio escavado na encosta, com o estranho nome de Vale Encantado, depois de abrasileirar-se o Enchanted Valley. O prédio fora lançado dez anos antes com a presença de Brigitte Bardot e Bob Zaguri, seu namorado brasileiro.

 

O que os turistas viam esporadicamente era a minha paisagem de todos os dias. A temperatura era a metade do calor ao nível do mar no Rio de Janeiro. O Alto estava quase sempre sob névoas. A umidade era desconfortável, mas o preço a pagar por morar nas franjas da Floresta da Tijuca. As noites eram frias, belíssimas. O que a poluição da cidade escondia, o Alto exibia-nos o charme do céu pleno de estrelas.

 

A praça Martins Leão abrigava o ponto do Xarope, apelido do ônibus que trafegava 4 vezes por dia nos 7,5 km que ligavam a paz do Vale ao arremedo de civilização na área central, o Alto da Boa Vista, com a Cascata da Tijuca, turistas estrangeiros, açougue, padaria, restaurante e um posto da Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes.

 

A presença desta delegacia no Alto da Boa Vista era inexplicável. Um vizinho, amigo meu – vamos chamá-lo de Everaldo – descobriu-lhe uma inovadora utilidade. Executivo de uma multinacional, ele vestia um elegante terno, ajustava o nó triangular na gravata, montava na poderosa Honda vermelha, ligava a ignição e um charuto de maconha, na medida exata da distância desde o nosso lar até o lançamento da guimba, por cima do muro, no quintal da delegacia.

 

Meu apartamento atraía a visita freqüente de amigos que moravam no litoral carioca. Eu era casado com Cláudia, grávida, esperando o nosso fillho, Victor. Na madrugada de domingo, mês de julho, nossos grandes amigos, Fausto e Célia, apareceram para colocar a conversa em dia, regada a vinho e queijos. Célia, também grávida de Fausto, esperando o meu futuro afilhado Alexandre, trocava figurinhas com Cláudia sobre roupinhas, contrações, ansiosas pela chegada do grande dia.

 

Eu me divertia com as peripécias de Fausto, mestre de capoeira e engenheiro naval do estaleiro Ishikawajima, contando o seu período de estágio em Tóquio, quando as japonesas ficavam intrigadas/excitadas com o peito peludo e sarado de um brasileiro branquelo. A risada do Fausto enriquecia a cena. Boquiaberto, parecendo surpreso, iniciava em soluços para explodir a gargalhada contagiante.

 

A névoa estava mais baixa do que o normal naquela madrugada. A passagem das nuvens pelas janelas lembrava um vôo de avião, ocultando as luzes da Barra da Tijuca e o brilho das estrelas.

 

De repente, pancadas fortes na porta. A conversa parou. Por algum tempo nos perguntamos o que seria. Mais pancadas, mais tensão. Pensei que seria o moleque do Luty, meu vizinho judeu, analista de sistemas, um meninão de 2 metros de altura, aprontando mais uma, avisando que estava na área e queria entrar no piquenique. Não, não seria o Luty. Na semana passada ele viajara de férias.

 

Mais pancadas. Quem passou pela portaria sem avisar no interfone? Não havia olho mágico na porta de um apartamento na roça… e no Rio de Janeiro. Eu tinha que abrir para saber o que estava acontecendo. Claudia e Celia estavam apreensivas. O capoeira Fausto postou-se em alerta.

 

Ao abrir a porta, vi duas mulheres no hall de entrada. A mulata, bonita, grande e gostosa, forçou a porta. Eu segurei. A morena, branca e bonitona, encostou-se na parede. Em desespero, a mulata suplicou:

 

- Moço, moço, ajuda a gente! O homem botou a gente dentro do carro e agora ele quer comer o nosso cu!

 

O quê?

 

Ainda segurando a porta, olhei por cima dos ombros para dentro da sala. Célia e Cláudia não continham a risada. Fausto abrira a boca, prenunciando a gargalhada. A morena murmurou seu desagrado com as palavras da amiga. A mulata logo se explicou:

 

- Mas era isso mesmo que ele queria, né?!

 

O que fazer? Eu não poderia abrigá-las em casa. Procurei tranquilizá-las e as acompanhei até o apartamento do zelador, ao som da gargalhada do Fausto. No prédio havia um salão mobiliado com sofás e poltronas. Elas esperariam ali até a primeira viagem do Xarope, às 6 da manhã, em segurança, a salvo do Glutão da Madrugada. Elas me agradeceram comovidas, invocaram-me tantas bençãos e proteção divina que por alguns instantes senti-me um canhestro herói da Floresta da Tijuca.

 

Eu ainda não soltara o riso, ocupado em salvar as donzelas. Quando retornei ao apartamento ficamos conjeturando por que, como foi que as jovens chegaram até lá. Eram bastante altos os muros que cercavam o condomínio. O esforço, o desespero fora incomum. Por que o nosso? Neste caso, esclareça-se, o nosso apartamento. Talvez fosse a única luz visível na madrugada de um denso nevoeiro, no prédio esvaziado de famílias em férias.

 

A hipótese mais provável porque as duas mulheres apareceram em local tão distante, escondido, começa nas ruas da Tijuca, bairro próximo ao estádio de futebol do Maracanã. O Glutão as convidou para um passeio de carro na orla da Barra de Tijuca. O caminho natural, com muitas curvas, subidas, descidas e vegetação nas margens das ruas, passa pela praça do Alto da Boa Vista. Ali houve um desvio à direita, em direção à praça Martins Leão, seguindo pela estrada do Vale Encantado, que margeia a Floresta da Tijuca, até chegar na rua sem saída do meu condomínio. Era o fim da linha para a dupla mulata e morena.

 

- Ou dá ou desce, eu quero o vosso…

 

Nos dias seguintes, eu parecia um louco para quem via um cidadão às gargalhadas, preso no calor sufocante do tráfego carioca, lembrando das palavras da mulata.

 

Quando queria divertir-me no meio da tarde, ligava para o escritório do Fausto, pedia à secretária para avisá-lo que “o nosso estava bem protegido” e aguardava pela risada inconfundível. Habituado com a encenação da comédia, bastava dizer, sempre pela secretária, que o assunto a tratar era “o nosso”. Eu ainda pedia compreensão à secretária para não avançar em detalhes porque se tratava de assunto estritamente pessoal, íntimo. Em seguida, ouvia a gostosa risada do Fausto.

 

O tempo passou. Os meninos nasceram. Fausto e Célia ainda tiveram uma menina linda, Letícia. A vida mudou. Eu me separei de Claudia. Em seguida, Fausto e Celia se desentenderam. O ponto mais dramático para o acordo foi a guarda da cadela weimaraner.

 

Anos depois, décadas mais tarde, houve a festa de aniversário de 30 anos da revista Veja, em São Paulo, organizada pela amiga e jornalista Suzana Veríssimo. Eu trabalhara na Veja, à época do lançamento da revista. Rita Ruschel, amiga que me acompanhava na festa, lembrou-se da história do Glutão da Madrugada. Ela insistia para que eu contasse.

 

As presenças das mulheres de meus colegas me constrangiam. Eu as conhecera naquela noite. À minha frente, intimidava-me o olhar severo de Mino Carta, diretor da Veja. Sempre senti pavor das explosões de cólera do Mino. Pouco antes de sentar-me à mesa, uma enorme távola redonda, confessara meu temor ao mestre, e aliviei os ombros do peso que carreguei tantos anos. A resposta de Mino foi um comovente abraço.

 

Rita insistia, não parava de rir, o que intrigava a todos. O meu amigo Carlos Souliê do Amaral estava à mesa, ladeado por mim e por sua mulher, a bela, elegante Ana Luiza.

 

Poeta, jornalista, Souliê é o crítico mais ácido que conheci. Alto, bonitão, olhos azuis, seu talento e cultura eram admiradas por uma legião de fãs, com a numerosa exceção dos que se atreveram a enfrentá-lo em temas polêmicos. Souliê os destruía, impiedoso, teatral, brilhante.

 

Rita insistia. Souliê me perguntou que raios de história era essa. Estava ficando tarde, éramos os últimos na festa que avançou pela madrugada. A champanhe injetou-me ânimo. Contei, resumido, pano rápido.

 

A risada foi geral. Até Mino Carta riu. Menos Souliê. Ele aguardou que as pessoas à mesa silenciassem. Ah, não… Souliê vai criar polêmica por causa disso?

 

Blazer azul por cima dos ombros, o temido polemista chamou-nos a atenção.

 

- Senhoras, senhores, por que a risadaria? A mucama está certa. Português escorreito. Nosso cu. Não se diz nossos cus, não se diz nossos anus. É plural majestático. Nosso cu.

 

O dedo mínimo levantado, Souliê ergueu a taça de champanhe. Antes de sorver mais um trago, fez uma careta de nojo e concluiu a inesperada lição de gramática.

 

- Aliás, é algo que eu não aprecio.

 

em 5 de abril de 2012