Elogio da incoerência – 1

 

 

Por conta de umas questões paralelas
envolvendo casamento, celibato, castidade,
a doutora Lúcia Evaristo lançou-me numa querela
sobre amor, alianças e o caminho da santidade.

 

Brandindo nas mãos um chicote moral
advertiu-me sobre o fogo do inferno.
Eu, admito, um pecador, pobre mortal,
temi pelo meu futuro no paraíso eterno.

 

Doutora Lúcia exigiu-me coerência
e com maestria tentou dar-me um nó.
Eu lhes peço de antemão indulgência,
mas coerência para cima de mim, aqui ó.

 

 

Notas & Informações

 

Lúcia Evaristo


Eu e Lúcia Evaristo, diretora da Biblioteca do Superior Tribunal de Justiça, discutíamos namoro, sexo, casamento sob a ótica religiosa da proibição de comunhão para divorciados. Sou católico apostólico romano, mas não aceitava o veto da igreja.

 

Márcio


Meu amigo fraterno Márcio Carvalho Britto chamou-me a atenção. Por exemplo, ele não comungava. Eu também não deveria fazê-lo.

 

 

monsenhor Marcony


Consultei o monsenhor Marcony Vinicus Ferreira, meu  confessor e orientador, e confirmou-se meu erro. Agora obedeço. Assisto a missa e não comungo.

 

 

 

 

escrito em 28 de março de 2004

 

publicado em 20 de agosto de 2007

 

Náufrago do Carandirú

Ilhas Mauritius – foto de Paul Heinz

 

Eu quero ir para a Ilha de Caras.
Lá todo mundo é feliz.
Se não é, põe a máscara
e abre um sorriso em xis.

 

Mulheres bonitas,
ninguém veste luto.
Alegria infinita
festeja-se tudo.

 

Na galáxia de cosméticos
o tempo parou de voar.
Todos são jovens, atléticos,
a beleza eterna no ar.

 

Peitos bem feitos de silicone,
rugas sem vestígio com botox.
Se uma é a gostosa, a outra é o clone.
Não se sabe qual é a xerox.

 

Se um dia eu for lá
vou só para namorar
uma mulher bem bonita.
Quando eu voltar para cá
trazendo no pulso uma fita,
esqueço por alguns segundos
do Brasil desigual
e dois diferentes mundos.

 

A Ilha é o paraíso virtual
o sonho sem ponto final.
Aqui eu sobrevivo,
de olhos bem abertos,
no cativeiro global.

 

Notas & Informações

 

O massacre do Carandirú

 

111 mortos, 153 feridos e 130 pessoas detidas. Este foi o final infeliz da maior chacina na história das penitenciárias brasileiras, no dia 2 de outubro de 1992, quarta-feira, na Casa de Detenção do Carandirú, zona norte da capital paulista.
Agentes penitenciários não conseguiram controlar a rebelião iniciada depois que dois presos brigaram por causa de roupas no varal.
Homens da Polícia Militar, sem identificação no uniforme, invadiram o presídio e dispararam 515 tiros de metralhadora, fuzil e pistola automática nas cabeças e peitos de 103 presos. Oito morreram com objetos cortantes.

 

Principais autoridades à época do massacre do Carandirú

 

Luiz Antonio Fleury Filho – Governador de São Paulo. Professor universitário, membro do Ministério Público de São Paulo, Fleury exerceu a presidência da Confederação Nacional por três mandatos sucessivos até a nomeação, em 1987, para Secretário de Segurança Pública na administração do governador Orestes Quércia. No final da gestão, foi eleito governador de São Paulo para o período de 1991 a 1995. Deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) em 1998. Secretário geral do Diretório Nacional do Partido, reelegeu-se em 2002 e perdeu o mandato nas eleições de 2006.

 

Pedro Franco CamposSecretário de Segurança. Procurador, nomeado Secretário de Segurança no governo Fleury. Intermediário dos contatos entre o governador, a direção do presídio e a polícia, Pedro Campos transmitiu a ordem de invasão. Exonerado da Secretaria após a chacina, não foi submetido a julgamento.

 

José Ismael PedrosaDiretor da Casa de Detenção do Carandirú. Ele também foi afastado do cargo e transferido para dirigir a Casa de Custódia de Taubaté, interior de São Paulo. Assassinado com oito tiros no centro de Taubaté, na tarde de domingo, dia 24 de outubro de 2005.

 

Ubiratan GuimarãesComandante da Polícia Militar. O coronel Ubiratan Guimarães chefiou a invasão. Foi responsabilizado diretamente por 102 mortes, condenado a 632 anos de prisão, mas absolvido pelos desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo sob o argumento de agir no “estrito cumprimento do dever”. Transferido para a reserva, em 1997 elegeu-se deputado estadual pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Não foi reeleito. Novamente candidato, foi assassinado com um tiro no peito, domingo à noite, dia 10 de setembro de 2006, duas semanas antes das eleições. Ele morreu em seu apartamento nos Jardins, bairro paulistano de classe média alta, aos 63 anos de idade. A namorada do coronel, Carla Prinzivalli Cepolina, advogada, 42 anos, é a principal suspeita. Na fase de inquérito, a Polícia Civil concluiu que houve crime passional e acusou Carla Cepolina de homicídio duplamente qualificado: 1) motivo fútil, ciúme; 2) impossibilidade de defesa: o coronel estava nu, embriagado.

 

Breve história do Carandirú

 

Maior presídio do Brasil e da América Latina, a Casa de Detenção de São Paulo localizava-se no bairro do Carandirú, zona norte da capital paulista. O projeto do engenheiro-arquiteto Samuel das Neves baseou-se no Centro Penitenciário de Fresnes, instalado na periferia de Paris, que funciona até hoje. A obra, concluída na década de 1920, foi adequada pelo escritório técnico do engenheiro-arquiteto Ramos de Azevedo. Por essa razão, Ramos de Azevedo é citado, incorretamente, como autor do projeto original.

 

 

Nos primeiros vinte anos, Carandirú foi um presídio-modelo que cumpria com rigor as exigências do Código Penal de 1890. A capacidade máxima era de 1.200 detentos. Sob o nome de Instituto de Regeneração, atraía a visita de políticos, estudantes de direito, autoridades jurídicas e intelectuais. O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss e o escritor austríaco Stefan Zweig conheceram o Carandirú. Em 1936, no livro “Encontros com homens, livros e países”, Zweig escreveu que “a limpeza e a higiene exemplares faziam com que o presídio se transformasse em uma fábrica de trabalho. Eram os presos que faziam o pão, preparavam os medicamentos, prestavam os serviços na clínica e no hospital, plantavam legumes, lavavam a roupa, faziam pinturas e desenhos e tinham aulas.”

 

 

Aberta à visitação pública, a Casa de Detenção desfrutava o prestígio de cartão postal da cidade de São Paulo. A partir de 1940, a superlotação provocou uma série de crises. Em 1956, o governador Jânio Quadros concluiu uma grande reforma que aumentou a capacidade para 3.250 presos e alterou profundamente o projeto original. Na década de 1990, a população carcerária do Carandirú atingiu a marca de aproximadamente 8 mil pessoas.

 

 

A chacina de 2 de outubro de 1992 marcou o início do fim da maior penitenciária do Brasil e da América Latina, do antigo presídio modelo, do cartão postal de São Paulo. Em 2002, o Carandirú foi desativado com a transferência de presos para outras prisões estaduais. Alguns pavilhões foram demolidos e outros preservados para abrigar instituições de ensino e cultura. Um grande parque está sendo construído na antiga área do presídio, o Parque da Juventude.

 

 

Diário de um Detento

 

No rap “Diário de um detento”, gravada pelos Racionais MC, há duas citações claras, diretas, sobre o papel do governador Fleury no massacre do Carandirú.

 

 

“Era a brecha que o sistema queria.
Avise o IML, chegou o grande dia.
Depende do sim ou não de um só homem.
Que prefere ser neutro pelo telefone.
Ratatatá, caviar e champanhe.
Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe.”

 

“Cadáveres no poço, no pátio interno.
Adolf Hitler sorri no inferno
O Robocop do governo é frio, não sente pena.
Só ódio e ri como a hiena.
Ratatatá, Fleury e sua gangue
vão nadar numa piscina de sangue.”

 

O disco “Sobrevivendo no Inferno”, que inclui “Diário de um detento”, é recordista de vendas. Mais de 1 milhão de cópias. A letra foi composta por Mano Brown, líder do grupo Racionais MC, em parceria com Jocenir, detento que ainda cumpria pena no Carandirú em 1998, época de lançamento da música. Mano Brown – Pedro Paulo Soares Pereira, nome verdadeiro – visitava o presídio com freqüência e conheceu Jocenir, autor de poemas e letras de música. Das anotações de Jocenir, o rapper compôs “Diário de um detento”. A letra narra o que aconteceu antes, durante e depois na visão de Jocenir, sobrevivente do massacre.

 

“São Paulo, dia 1º de outubro de 1992, 8h da manhã.
Aqui estou, mais um dia.
Sob o olhar sanguinário do vigia.
Você não sabe como é caminhar com a cabeça na mira de
uma HK.
Metralhadora alemã ou de Israel.
Estraçalha ladrão que nem papel.
Na muralha, em pé, mais um cidadão José.
Servindo o Estado, um PM bom.
Passa fome, metido a Charles Bronson.
Ele sabe o que eu desejo.
Sabe o que eu penso.
O dia tá chuvoso. O clima tá tenso.
Vários tentaram fugir, eu também quero.
Mas de um a cem, a minha chance é zero.
Será que Deus ouviu minha oração?
Será que o juiz aceitou a apelação?
Mando um recado lá pro meu irmão:
Se tiver usando droga, tá ruim na minha mão.
Ele ainda tá com aquela mina.
Pode crer, moleque é gente fina.
Tirei um dia a menos ou um dia a mais, sei lá…
Tanto faz, os dias são iguais.
Acendo um cigarro, vejo o dia passar.
Mato o tempo pra ele não me matar.
Homem é homem, mulher é mulher.
Estuprador é diferente, né?
Toma soco toda hora, ajoelha e beija os pés,
e sangra até morrer na rua 10.
Cada detento uma mãe, uma crença.
Cada crime uma sentença.
Cada sentença um motivo, uma história de lágrima,
sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio,
sofrimento, desprezo, desilusão, ação do tempo.
Misture bem essa química.
Pronto: eis um novo detento
Lamentos no corredor, na cela, no pátio.
Ao redor do campo, em todos os cantos.
Mas eu conheço o sistema, meu irmão, hã…
Aqui não tem santo.
Rátátátá… preciso evitar
que um safado faça minha mãe chorar.
Minha palavra de honra me protege
pra viver no país das calças bege.
Tic, tac, ainda é 9h40.
O relógio da cadeia anda em câmera lenta.
Ratatatá, mais um metrô vai passar.
Com gente de bem, apressada, católica.
Lendo jornal, satisfeita, hipócrita.
Com raiva por dentro, a caminho do Centro.
Olhando pra cá, curiosos, é lógico.
Não, não é não, não é o zoológico
Minha vida não tem tanto valor
quanto seu celular, seu computador.
Hoje, tá difícil, não saiu o sol.
Hoje não tem visita, não tem futebol.
Alguns companheiros têm a mente mais fraca.
Não suportam o tédio, arruma quiaca.
Graças a Deus e à Virgem Maria.
Faltam só um ano, três meses e uns dias.
Tem uma cela lá em cima fechada.
Desde terça-feira ninguém abre pra nada.
Só o cheiro de morte e Pinho Sol.
Um preso se enforcou com o lençol.
Qual que foi? Quem sabe? Não conta.
Ia tirar mais uns seis de ponta a ponta (…)
Nada deixa um homem mais doente
que o abandono dos parentes.
Aí moleque, me diz: então, cê qué o quê?
A vaga tá lá esperando você.
Pega todos seus artigos importados.
Seu currículo no crime e limpa o rabo.
A vida bandida é sem futuro.
Sua cara fica branca desse lado do muro.
Já ouviu falar de Lucífer?
Que veio do Inferno com moral.
Um dia… no Carandirú, não… ele é só mais um.
Comendo rango azedo com pneumonia…
Aqui tem mano de Osasco, do Jardim D’Abril, Parelheiros,
Mogi, Jardim Brasil, Bela Vista, Jardim Angela,
Heliópolis, Itapevi, Paraisópolis.
Ladrão sangue bom tem moral na quebrada.
Mas pro Estado é só um número, mais nada.
Nove pavilhões, sete mil homens.
Que custam trezentos reais por mês, cada.
Na última visita, o neguinho veio aí.
Trouxe umas frutas, Marlboro, Free…
Ligou que um pilantra lá da área voltou.
Com Kadett vermelho, placa de Salvador.
Pagando de gatão, ele xinga, ele abusa
com uma nove milímetros embaixo da blusa.
Brown: “Aí neguinho, vem cá, e os manos onde é que tá?
Lembra desse cururu que tentou me matar?”
Blue: “Aquele puta ganso, pilantra corno manso.
Ficava muito doido e deixava a mina só.
A mina era virgem e ainda era menor.
Agora faz chupeta em troca de pó!”
Brown: “Esses papos me incomoda.
Se eu tô na rua é foda…”
Blue: “É, o mundo roda, ele pode vir pra cá.”
Brown: “Não, já, já, meu processo tá aí.
Eu quero mudar, eu quero sair.
Se eu trombo esse fulano, não tem pá, não tem pum.
E eu vou ter que assinar um cento e vinte e um.”
Amanheceu com sol, dois de outubro.
Tudo funcionando, limpeza, jumbo.
De madrugada eu senti um calafrio.
Não era do vento, não era do frio.
Acertos de conta tem quase todo dia.
Ia ter outra logo mais, eu sabia.
Lealdade é o que todo preso tenta.
Conseguir a paz, de forma violenta.
Se um salafrário sacanear alguém,
leva ponto na cara igual Frankestein
Fumaça na janela, tem fogo na cela.
Fudeu, foi além, se pã!, tem refém.
Na maioria, se deixou envolver
por uns cinco ou seis que não têm nada a perder.
Dois ladrões considerados passaram a discutir.
Mas não imaginavam o que estaria por vir.
Traficantes, homicidas, estelionatários.
Uma maioria de moleque primário.
Era a brecha que o sistema queria.
Avise o IML, chegou o grande dia.
Depende do sim ou não de um só homem.
Que prefere ser neutro pelo telefone.
Ratatatá, caviar e champanhe.
Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe!
Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo…
quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio!
O ser humano é descartável no Brasil.
Como modess usado ou bombril.
Cadeia? Claro que o sistema não quis.
Esconde o que a novela não diz.
Ratatatá! sangue jorra como água.
Do ouvido, da boca e nariz.
O Senhor é meu pastor…
perdoe o que seu filho fez.
Morreu de bruços no salmo 23,
sem padre, sem repórter.
sem arma, sem socorro.
Vai pegar HIV na boca do cachorro.
Cadáveres no poço, no pátio interno.
Adolf Hitler sorri no inferno!
O Robocop do governo é frio, não sente pena.
Só ódio e ri como a hiena.
Ratatatá, Fleury e sua gangue
vão nadar numa piscina de sangue.
Mas quem vai acreditar no meu depoimento?
Dia 3 de outubro, diário de um detento.”

 

escrito em 14 de fevereiro de 2003

 

publicado em 5 de agosto de 2007