Inventário de Misérias

pintura de Sérgio Allevato

 

O que seria possível fazer
para cultivar a boa semente
extirpar a erva daninha
o veneno da serpente
no escárnio do teu sorriso.

 

A ilusória virtude,
a fugidia beleza,
o tesouro da juventude,
o somatório de certeza,
desfizeram-se em nuvens de espuma.
O tempo passou
e não acumulaste fortuna.

 

E agora, Mané?
Agora é tarde.
Enredado na própria trama,
sob o peso da idade,
a ti restaste a condição humana
de seres o ventríloquo
da maledicência perene
a escavar minério de prata
em artefatos de lata.

 

A alma está corrompida,
a pureza foi destruída.
Caritas, bonomia,
não teriam qualquer serventia
ante a perversa vilania
da espada fratricida,
virulenta, doentia,
no mercadejo de mesquinharia.

 

Bonifrate,
tu replicas
a mensagem virtual
da intriga verrina,
a cilada terrena
imoral, restrita.

 

Cego,
tu não vês
o amor fraternal
da misericórdia divina,
a graça plena
imortal, infinita.

 

 

publicado em 11 de fevereiro de 2012

 

Aprumou-se, entonces

Trancoso, Bahia – fotos Beth Jeker

 

 

Eu te conheci,
e não te reconheci,
caída, abandonada, sofrida.
Agora te ergues das cinzas
forte, renovada, bonita.

 

 

 

No entanto, à luz de todo o encanto,
o teu olhar não brilha
e tu sabes que não és feliz.
O que tu fazes, catita?
Tu ainda lutas  pela glória
na metrópole surreal?

 

 

 

 

 

 

Esqueça a tua memória,
livra-te de todo o mal.
Deus é misericordioso.
Tu terás um abrigo especial
no mar da Bahia, Trancoso.

 

 

 

 

 

 

 

 

Beth – foto Clarisse Marchi

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado em 15 de julho de 2012