• 06/07/2012 - Cotidiano

    A Semana Santa de Elia

    A incredulidade de Tomé, pintura de Caravaggio, 1599

     

     

    Elia, minha mulher, advertiu-me.

     

    - Eu vou passar a Semana Santa no capricho. Confessar, comungar, tudo. É uma homenagem à minha mãe. Estou com muitas saudades dela.

     

    Dona Chicó faleceu em 2004. A mãe ainda está presente na vida da filha com uma força impressionante, comovente.

     

    Elia, no jantar de seu aniversário - foto Alceu

    O capricho de Elia era obedecer com todo o rigor, todos os ritos que um católico praticante, fiel de verdade, deveria cumprir.

     

    Eu decidi que teria uma agenda menor, quase mínima, e acompanharia à distância a maratona católica apostólica romana, esperando o que sobraria para mim.

     

    Eu fui coroinha, participei de muitas Semanas Santas. Balancei muito turíbulo, queimei muito incenso, cantei muitos salmos em Latim, segui à frente do Santíssimo em numerosas procissões.

     

    É verdade que fazia o meu papel por obediência à minha mãe, mas eu gostava. Era um coroinha aplicado. No final do ano, havia prêmio em dinheiro doado pelo monsenhor João Batista Pavesi, da paróquia de Alegre, Espírito Santo – uma nota de 20 cruzeiros estalando de nova. Eu demorava a gastar, admirando as cores e o desenho da cédula. Não era pelo dinheiro que eu ajudava na ladainha diária e na missa aos domingos. A pregação, os cânticos, os salmos e a liturgia me encantavam.

     

    O capricho de Elia, eu sabia, sobrou para mim. A abstinência seria completa, total, Elia avisou-me. Eu perguntei o que significava isto.

     

    - Nada de sexo.

     

    Questionei o rito. Abstinência era para carne bovina, suína etc. Não havia qualquer proibição quanto a prática de sexo. Elia bateu pé. Meu pobre argumento que sou do signo de Peixes – alimento obrigatório na Semana Santa – também não a convenceu. Consegui apenas uma linda risada.

     

    Era imensa a fila da confissão na Catedral Rainha da Paz, em Brasília, perto de minha casa. Elia procurou o padre para contornar a dificuldade.

     

    - Seu padre, é o seguinte. Não me confesso há 30 anos. Só não cometi dois pecados: matar e roubar.

     

    O padre levou um susto.

     

    - Minha filha, o que é isso!

     

    - A fila está muito grande. Se eu lembrar de todos os pecados, vamos ficar uma semana no confessionário. Só quero facilitar o seu trabalho.

     

    - Então você vai fazer o seguinte. Entra na fila. Quando chegar a sua vez, chame o sacristão para me avisar, que eu já sei o seu problema.

     

    Quando Elia me contou o acerto da confissão, eu ainda tentei argumentar.

     

    - Que conversa é essa, madame Catunda!?

     

    Elia chama-se Catunda Castanheiro Coelho, acreana, nascida e criada em Rio Branco, casada aos 17 anos, viúva aos 27.

     

    - Trinta anos sem confissão – eu disse. Tem pecado aí que já prescreveu. Você já pecou em cima do pecado anterior. Tem pecado em duplicata, triplicata.

     

    - É tudo isso, mas eu quero assim. O padre vai me absolver direitinho e vou comungar numa boa. Minha mãe vai ficar muito feliz.

     

    Estava escrito. Assim foi, assim ela fez. Confissão, comunhão, horas e horas de adoração ao Santíssimo, de missas e orações. Peixe na Sexta-Feira da Paixão, sem vinho.

     

    Na inesquecível Semana Santa de 2012, a minha vida voltou ao normal somente na terça-feira.

     

     

    Notas & Informações

     

    A pintura do italiano Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610) representa a incredulidade de Tomé, narrada em ‘O dia da Ressurreição’ no Evangelho segundo São João, capítulo 3, versículos 24-29.

     

    “Um dos Doze, Tomé, chamado Dídimo, não estava com eles, quando veio Jesus. Os outros discípulos, então, lhe disseram: ‘Vimos o Senhor!’ Mas ele lhes disse: ‘Se eu não vir em suas mãos o lugar dos cravos e se não puser meu dedo no lugar dos cravos e minha mão no seu lado, não crerei.’

     

    Oito dias depois, achavam-se os discípulos, de novo, dentro de casa, e Tomé com eles.

     

    Jesus veio, estando as portas fechadas, pôs-se no meio deles e disse: ‘A paz esteja convosco!’ Disse depois a Tomé: ‘Põe teu dedo aqui e vê minhas mãos! Estende tua mão e põe-na no meu lado e não sejas incrédulo, mas crê!’ Respondeu-lhe Tomé: ‘Meu senhor e meu Deus!’ Jesus lhe disse: ‘Porque viste, creste. Felizes os que não viram, e creram!’”

     

    Os versículos do Evangelho Segundo São João foram fielmente reproduzidos de ‘A Bíblia de Jerusalém’, edição em língua portuguesa pela Sociedade Bíblica Católica Internacional e Paulus, São Paulo, 1985. ‘A Bíblia de Jerusalém’ recebeu o Imprimatur do Cardeal Paulo Evaristo Arns, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, em 1º de novembro de 1980.

     

     

    publicado em 6 de julho de 2012

     

     

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  • 05/04/2012 - Cotidiano

    Plural Majestático

    Carnaval no Rio de Janeiro, Ano da Graça de 2012

     

    No final da década de 1970, eu morava no Alto da Boa Vista, Rio de Janeiro. De uma praça plantada em meio a uma frondosa figueira, frente a uma pequena igreja, a vista era fascinante.

     

    Nos fins de semana, a praça Martins Leão acolhia hordas de turistas extasiados para ver, fotografar, toda a extensão da orla da Barra da Tijuca. Seguindo à direita da praça, por um suave declive, chegava-se ao meu refúgio, o apartamento no prédio escavado na encosta, com o estranho nome de Vale Encantado, depois de abrasileirar-se o Enchanted Valley. O prédio fora lançado dez anos antes com a presença de Brigitte Bardot e Bob Zaguri, seu namorado brasileiro.

     

    O que os turistas viam esporadicamente era a minha paisagem de todos os dias. A temperatura era a metade do calor ao nível do mar no Rio de Janeiro. O Alto estava quase sempre sob névoas. A umidade era desconfortável, mas o preço a pagar por morar nas franjas da Floresta da Tijuca. As noites eram frias, belíssimas. O que a poluição da cidade escondia, o Alto exibia-nos o charme do céu pleno de estrelas.

     

    A praça Martins Leão abrigava o ponto do Xarope, apelido do ônibus que trafegava 4 vezes por dia nos 7,5 km que ligavam a paz do Vale ao arremedo de civilização na área central, o Alto da Boa Vista, com a Cascata da Tijuca, turistas estrangeiros, açougue, padaria, restaurante e um posto da Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes.

     

    A presença desta delegacia no Alto da Boa Vista era inexplicável. Um vizinho, amigo meu – vamos chamá-lo de Everaldo – descobriu-lhe uma inovadora utilidade. Executivo de uma multinacional, ele vestia um elegante terno, ajustava o nó triangular na gravata, montava na poderosa Honda vermelha, ligava a ignição e um charuto de maconha, na medida exata da distância desde o nosso lar até o lançamento da guimba, por cima do muro, no quintal da delegacia.

     

    Meu apartamento atraía a visita freqüente de amigos que moravam no litoral carioca. Eu era casado com Cláudia, grávida, esperando o nosso fillho, Victor. Na madrugada de domingo, mês de julho, nossos grandes amigos, Fausto e Célia, apareceram para colocar a conversa em dia, regada a vinho e queijos. Célia, também grávida de Fausto, esperando o meu futuro afilhado Alexandre, trocava figurinhas com Cláudia sobre roupinhas, contrações, ansiosas pela chegada do grande dia.

     

    Eu me divertia com as peripécias de Fausto, mestre de capoeira e engenheiro naval do estaleiro Ishikawajima, contando o seu período de estágio em Tóquio, quando as japonesas ficavam intrigadas/excitadas com o peito peludo e sarado de um brasileiro branquelo. A risada do Fausto enriquecia a cena. Boquiaberto, parecendo surpreso, iniciava em soluços para explodir a gargalhada contagiante.

     

    A névoa estava mais baixa do que o normal naquela madrugada. A passagem das nuvens pelas janelas lembrava um vôo de avião, ocultando as luzes da Barra da Tijuca e o brilho das estrelas.

     

    De repente, pancadas fortes na porta. A conversa parou. Por algum tempo nos perguntamos o que seria. Mais pancadas, mais tensão. Pensei que seria o moleque do Luty, meu vizinho judeu, analista de sistemas, um meninão de 2 metros de altura, aprontando mais uma, avisando que estava na área e queria entrar no piquenique. Não, não seria o Luty. Na semana passada ele viajara de férias.

     

    Mais pancadas. Quem passou pela portaria sem avisar no interfone? Não havia olho mágico na porta de um apartamento na roça… e no Rio de Janeiro. Eu tinha que abrir para saber o que estava acontecendo. Claudia e Celia estavam apreensivas. O capoeira Fausto postou-se em alerta.

     

    Ao abrir a porta, vi duas mulheres no hall de entrada. A mulata, bonita, grande e gostosa, forçou a porta. Eu segurei. A morena, branca e bonitona, encostou-se na parede. Em desespero, a mulata suplicou:

     

    - Moço, moço, ajuda a gente! O homem botou a gente dentro do carro e agora ele quer comer o nosso cu!

     

    O quê?

     

    Ainda segurando a porta, olhei por cima dos ombros para dentro da sala. Célia e Cláudia não continham a risada. Fausto abrira a boca, prenunciando a gargalhada. A morena murmurou seu desagrado com as palavras da amiga. A mulata logo se explicou:

     

    - Mas era isso mesmo que ele queria, né?!

     

    O que fazer? Eu não poderia abrigá-las em casa. Procurei tranquilizá-las e as acompanhei até o apartamento do zelador, ao som da gargalhada do Fausto. No prédio havia um salão mobiliado com sofás e poltronas. Elas esperariam ali até a primeira viagem do Xarope, às 6 da manhã, em segurança, a salvo do Glutão da Madrugada. Elas me agradeceram comovidas, invocaram-me tantas bençãos e proteção divina que por alguns instantes senti-me um canhestro herói da Floresta da Tijuca.

     

    Eu ainda não soltara o riso, ocupado em salvar as donzelas. Quando retornei ao apartamento ficamos conjeturando por que, como foi que as jovens chegaram até lá. Eram bastante altos os muros que cercavam o condomínio. O esforço, o desespero fora incomum. Por que o nosso? Neste caso, esclareça-se, o nosso apartamento. Talvez fosse a única luz visível na madrugada de um denso nevoeiro, no prédio esvaziado de famílias em férias.

     

    A hipótese mais provável porque as duas mulheres apareceram em local tão distante, escondido, começa nas ruas da Tijuca, bairro próximo ao estádio de futebol do Maracanã. O Glutão as convidou para um passeio de carro na orla da Barra de Tijuca. O caminho natural, com muitas curvas, subidas, descidas e vegetação nas margens das ruas, passa pela praça do Alto da Boa Vista. Ali houve um desvio à direita, em direção à praça Martins Leão, seguindo pela estrada do Vale Encantado, que margeia a Floresta da Tijuca, até chegar na rua sem saída do meu condomínio. Era o fim da linha para a dupla mulata e morena.

     

    - Ou dá ou desce, eu quero o vosso…

     

    Nos dias seguintes, eu parecia um louco para quem via um cidadão às gargalhadas, preso no calor sufocante do tráfego carioca, lembrando das palavras da mulata.

     

    Quando queria divertir-me no meio da tarde, ligava para o escritório do Fausto, pedia à secretária para avisá-lo que “o nosso estava bem protegido” e aguardava pela risada inconfundível. Habituado com a encenação da comédia, bastava dizer, sempre pela secretária, que o assunto a tratar era “o nosso”. Eu ainda pedia compreensão à secretária para não avançar em detalhes porque se tratava de assunto estritamente pessoal, íntimo. Em seguida, ouvia a gostosa risada do Fausto.

     

    O tempo passou. Os meninos nasceram. Fausto e Célia ainda tiveram uma menina linda, Letícia. A vida mudou. Eu me separei de Claudia. Em seguida, Fausto e Celia se desentenderam. O ponto mais dramático para o acordo foi a guarda da cadela weimaraner.

     

    Anos depois, décadas mais tarde, houve a festa de aniversário de 30 anos da revista Veja, em São Paulo, organizada pela amiga e jornalista Suzana Veríssimo. Eu trabalhara na Veja, à época do lançamento da revista. Rita Ruschel, amiga que me acompanhava na festa, lembrou-se da história do Glutão da Madrugada. Ela insistia para que eu contasse.

     

    As presenças das mulheres de meus colegas me constrangiam. Eu as conhecera naquela noite. À minha frente, intimidava-me o olhar severo de Mino Carta, diretor da Veja. Sempre senti pavor das explosões de cólera do Mino. Pouco antes de sentar-me à mesa, uma enorme távola redonda, confessara meu temor ao mestre, e aliviei os ombros do peso que carreguei tantos anos. A resposta de Mino foi um comovente abraço.

     

    Rita insistia, não parava de rir, o que intrigava a todos. O meu amigo Carlos Souliê do Amaral estava à mesa, ladeado por mim e por sua mulher, a bela, elegante Ana Luiza.

     

    Poeta, jornalista, Souliê é o crítico mais ácido que conheci. Alto, bonitão, olhos azuis, seu talento e cultura eram admiradas por uma legião de fãs, com a numerosa exceção dos que se atreveram a enfrentá-lo em temas polêmicos. Souliê os destruía, impiedoso, teatral, brilhante.

     

    Rita insistia. Souliê me perguntou que raios de história era essa. Estava ficando tarde, éramos os últimos na festa que avançou pela madrugada. A champanhe injetou-me ânimo. Contei, resumido, pano rápido.

     

    A risada foi geral. Até Mino Carta riu. Menos Souliê. Ele aguardou que as pessoas à mesa silenciassem. Ah, não… Souliê vai criar polêmica por causa disso?

     

    Blazer azul por cima dos ombros, o temido polemista chamou-nos a atenção.

     

    - Senhoras, senhores, por que a risadaria? A mucama está certa. Português escorreito. Nosso cu. Não se diz nossos cus, não se diz nossos anus. É plural majestático. Nosso cu.

     

    O dedo mínimo levantado, Souliê ergueu a taça de champanhe. Antes de sorver mais um trago, fez uma careta de nojo e concluiu a inesperada lição de gramática.

     

    - Aliás, é algo que eu não aprecio.

     

    em 5 de abril de 2012

      No final da década de 1970, eu morava no Alto da Boa Vista, Rio de Janeiro. De uma praça plantada em meio a uma frondosa figueira, frente a uma pequena igreja, a vista era fascinante.   Nos fins de … Leia mais