• 12/03/2012 - Cotidiano

    Sexo e burocracia

    foto Atlantis Divers

     

     

    Na década de 1980, doutor Claudio, meu amigo, criou um projeto de atendimento médico para a ilha de Fernando de Noronha e o apresentou ao então governador, jornalista Fernando Mesquita.

     

    O projeto foi aprovado, Claudio mudou-se de mala e cuia para residir um ano em Fernando de Noronha, acompanhado da mulher, assistente social.

     

    A maioria do pessoal civil da ilha é de pescadores. Metade dessa população bebe quase todas, um dia sim e o outro também.

     

    Mané Encrenquinha é o alcoólico mais famoso da ilha. Ao final do expediente, a mulher do doutor Claudio chegou em casa com a novidade da reclamação da celebridade local ao Serviço de Assistência Social.

     

    Ele sentou-se à mesa de atendimento. A funcionária preparou-se para anotar a reivindicação do senhor Manoel.

     

    - Tem dezessete anos que a minha mulher me põe galho com o vizinho e o Governo não faz nada.

     

    publicado em 23 de julho de 2007

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  • 10/03/2012 - Cotidiano

    O herói Siqueira Campos, ex Veado

    Bambi brinca de equilibrar a borboleta

     

    O jornalista Carlos Brickman levantou a cauda do nome ‘Veado’ para uma cidade do sul do Espírito Santo. Eu tentei esclarecer alguns pontos obscuros. A emenda foi desastrosa. Atiramos no que vimos – o tenente Siqueira Campos e o município de ‘Veado’ – e acertamos o que não vimos.

     

    ‘Veado’ era distrito de ‘Alegre’. Nasci em Minas Gerais. Morei em ‘Alegre’ desde os 6 até meus 12 anos de idade quando a minha família mudou-se para Brasília na década de 1960.

     

    Na estação de trem do distrito a única identificação visível era ‘Veado’. Menino ainda, eu achava estranho, mas se estava escrito ‘Veado’, vale o escrito.

     

    Relatei o que sabia ao meu amigo Carlos Brickmann. Judeu bem humorado, com 2 metros de altura e perfil de lutador de sumô, o grande Carlinhos não perde a chance de uma piada. Ele preferiu ignorar que eu residira em ‘Alegre’ e não em ‘Veado’.

     

    Brickmann respondeu ao mail:

     

    “Alceu, quem diria! Um morador de Alegre Veado! Vou botar seu site no Favoritos. Abração!”

     

    Eu decidi pesquisar em fonte confiável – Biblioteca do IBGE – a história de Veado, Alegre, Siqueira Campos.

     

    A região sul do Espírito Santo era ocupada por tribos da nação tupi. No início do século 19, o capitão-mor Manoel Esteves de Lima e um bando de homens destemidos saíram de Minas Gerais, passaram pela Serra do Caparaó e instalaram uma povoação às margens do rio Veado. O primeiro nome do povoado foi São Bom Jesus do Livramento.

     

    Em meados do século 19, mais precisamente em 13 de julho de 1866, alguém teve a infeliz idéia de alterar-lhe a denominação para São Miguel do Veado. O povoamento era distrito de São Pedro de Cachoeiro do Itapemirim, terra em que nasceram Rubem Braga, Rachel Braga, Nara Leão, Danuza Leão, Carlos Imperial e Roberto Carlos – o cantor, o compositor e o exterminador de suas biografias que não lhe agradam.

     

    Alguns anos mais tarde, 1890, outro infortúnio para o nome do povoado. Passou a ser distrito de Nossa Senhora da Conceição do Alegre.

     

    A situação complicou-se em 1911. Nossa Senhora da Conceição abandonou Alegre, assim como São Miguel escapou de Veado. Ficou então ‘Veado’, distrito de ‘Alegre’. Pronto, ‘Alegre Veado’.

     

    Em 1928, com dezessete anos de vida política, o jovem distrito de Veado foi desmembrado de Alegre.

     

    Mais percalços para o município novato. Apenas três anos depois, em 1931, o governo do Espírito Santo decretou outro topônimo para ‘Veado’ em homenagem ao grande herói da época, o tenente Antonio de Siqueira Campos, paulista de Rio Claro.

     

    Um dos comandantes da revolução tenentista de 1922, o tenente Antonio sobreviveu ao bombardeio no Forte de Copacabana, sobreviveu novamente a um tiro no abdómen na batalha da rua Barroso, em Copacabana, atual Siqueira Campos. Não escapou de um acidente de avião em maio de 1930, aos 32 anos.

     

    Na década de 1930 era uma completa baderna a criação de nomes de municípios, cidades, distritos e vilas. Dois decretos de Getúlio Vargas colocaram ordem no terreiro. O primeiro, nº 311, de 1938, sistematizava a divisão territorial do País. O segundo, nº 3.599, de 1941, eliminava a duplicata de nomes. O que hoje é normal, corriqueiro, o Conselho Nacional de Geografia celebrou como ‘uma das expressivas e fecundas conquistas do Estado Novo.’

     

    Siqueira Campos era município da região norte do Paraná desde 5 de novembro de 1930. Por lei garantia-se preferência de nome para quem escolhera primeiro.

     

    O equívoco de Veado finalmente desfez-se no último dia de 1943. Novo decreto estadual remeteu Siqueira Campos capixaba às origens de nação tupi batizando-o com o nome, agora definitivo, de Guaçuí.

     

    Os dicionários de tupi-guarani do poeta Gonçalves Dias e do professor Silveira Bueno demonstram que ‘guassu’ significa ‘veado’, e a terminação ‘y’, ‘rio’. Reconstruiu-se a história do princípio do século 19 quando o capitão-mor Manoel Esteves Lima e a sua milícia fundaram a povoação às margens de ‘guassu-y’, rio Veado.

     

    A próspera Guaçuí é a terra natal do atual governador Paulo Hartung (PMDB), reeleito no primeiro turno. A população de 27 mil e 302 habitantes, segundo o Censo de 2004, divide-se em mais dois distritos, São Tiago e São Pedro de Rates, nomes santos, abençoados e a salvo da ironia demolidora do meu amigo Carlos Brickmann.

     

    publicado em 5 de abril de 2007

      O jornalista Carlos Brickman levantou a cauda do nome ‘Veado’ para uma cidade do sul do Espírito Santo. Eu tentei esclarecer alguns pontos obscuros. A emenda foi desastrosa. Atiramos no que vimos – o tenente Siqueira Campos e o … Leia mais