• 01/02/2012 - Crônicas, Nelson Piquet

    O campeonato está nas mãos de Ayrton

    Nelson Piquet treina com a Benetton Ford em Silverstone - pintura de Jorge Eduardo Alves de Souza

     

     

    A corrida foi tranquila para a McLaren. Primeiro  e segundo lugares,  com  uma  volta  de  vantagem.  O campeonato está muito seguro nas mãos do Ayrton. Nas três primeiras corridas ele somou muitos pontos à frente. De agora em diante é só administrar a liderança. Está fácil para ele.

     

    Não se pode avaliar nada entre Berger e Ayrton neste Grande Prêmio de San Marino por causa das condições da pista. Choveu, depois o tempo firmou. Já que os  dois  McLaren  lideravam  a corrida, o Ayrton aliviou o pé, despreocupado. Berger não andou bem nos treinos de classificação. Foi muito mais lento que o Ayrton.

     

    Foi uma pena o Moreno não chegar em 3º. Já seria um alívio para a  equipe se a gente fizesse o pódio na primeira corrida com o Benetton novo. A dedicação dos mecânicos   desde quinta feira,  dia 25,  até o dia da corrida, domingo, foi impressionante. Eles passavam no hotel só para tomar bancho e trocar de roupa. Em quatro dias de trabalhos eles descansaram apenas 5 horas. É inacreditável como eles resistiram.

     

    O novo Benetton tem um grande potencial, mas no momento estamos atirando no escuro. Ainda não sabemos o que fazer para acertar. Não tivemos a chance de rodar 200 ou 300 km por dia, que é um teste normal para ajuste de qualquer carro. Já deu para sentir que o novo modelo tem muito mais tração que o carro velho. É mais veloz na reta com a mesma pressão aerodinâmica.

     

    O Benetton B-191 foi inteiramente redesenhado. Não é a mesma coisa que os projetos da McLaren e da Williams. Os carros de Ayrton-Berger e de Patrese-Mansell são novos modelos em que se aproveitou basicamente a estrutura anterior e foram modificadas uma parte aqui e outra ali.

     

    John Barnard criou um carro completamente diferente. Ele desenhou desde o pedal do freio ao trambulador do câmbio. Por exemplo, o câmbio foi projetado para um sistema inteiramente eletrônico. Só que ainda não está pronto. O câmbio que usamos até agora é manual. E como os garfos onde se faz a  seleção de  marchas são muito precisos, muito justos, enfrentamos dificuldade para engrenar/desengrenar.

     

    Nem tivemos tempo para acertar outros detalhes do carro. A semana toda ficamos concentrados em estudar a fórmula para o câmbio funcionar melhor.

     

    Nos treinos de sexta feira, dia  26, o seletor de câmbio quebrou na quarta e quinta marchas. Moreno também enfrentou os mesmos problemas. No sábado, choveu. Na última meia hora de treino finalmente consegui rodar 8 voltas consecutivas. O acerto do novo carro – mola, amortecedor, asa – foi por tentativa.

     

    O sol brilhou domingo de manhã. Colocamos molas duras na frente e na traseira. Foi pura adivinhação. Andei somente 3 voltas com as molas macias nos treinos e resolvi trocar para o dia da corrida. Na  largada, com a pista  molhada, o carro ficou impossível de pilotar. A suspensão estava duríssima. E para complicar, a embreagem é muito violenta. O cilindro mestre precisa de alteração.

     

    O ideal é que seja um pouco menor para dar mais curso à embreagem. Eu já tinha avisado sobre esse defeito, mas não havia peças de reposição. Quando eu tiro o pé da embreagem na redução de marchas, as rodas travam. Na segunda volta acabei saindo da pista.

     

    Agora temos um novo motor Ford com quase 30 cavalos a mais. E a nova gasolina especial, desenvolvida pela Mobil, aumentou a potência do propulsor. A Ford preparou um novo motor de classificação e nem foi usado em Imola. Era inútil montar um motor de classificação para rodar cinco voltas, se tínhamos tantos outros problemas para resolver.

     

    Não será possível testar o carro antes dos treinos da corrida de Monaco, no próximo dia 12 de maio. A equipe de Barnard ainda está construindo o 4º e o 5º câmbio de reserva. Ainda  não temos estoque de peças suficiente. Falta engrenar muita coisa para que o novo projeto se tranforme num carro verdadeiramente competitivo.

     

    Moreno fez quase toda a corrida de Imola e vai trazer mais informações sobre o comportamento do Benetton B-191. Tomara que tudo melhore, mas eu acho que Monaco não vai ser moleza.

     

    Grande Prêmio de San Marino, Imola

     

    publicado em 29 de abril de 1991

        A corrida foi tranquila para a McLaren. Primeiro  e segundo lugares,  com  uma  volta  de  vantagem.  O campeonato está muito seguro nas mãos do Ayrton. Nas três primeiras corridas ele somou muitos pontos à frente. De agora em … Leia mais

  • 28/01/2012 - Crônicas, Nelson Piquet

    91, o melhor ano de Ayrton Senna

    Nelson Piquet treina com a Benetton Ford em Silverstone - pintura de Jorge Eduardo Alves de Souza

     

     

    O fato mais relevante no Campeonato de 91 foi que, pela primeira vez, a McLaren não tinha o melhor carro, o mais rápido, como aconteceu nas temporadas anteriores. A vitória da McLaren nas primeiras corridas se deve em grande parte ao desacerto das outras equipes. Quando a Williams melhorou e começou a vencer, faltou piloto para faturar todas as corridas até o final do ano.

     

    Foi o melhor ano de Ayrton, sem dúvida. Nos anos anteriores ele cometeu erros, bateu, etc Em 91, não. Ele foi mais consistente. O que significa ser um piloto consistente? É não cometer erros, não perder pontos. É pilotar para vencer o campeonato.

     

    Mansell, que se transformou no maior adversario de Ayrton, não foi consistente. Mansell perdeu em Interlagos porque errou, rodou, quebrou o câmbio, no momento em que havia chances reais de conquistar a vitória.

     

    Nas últimas voltas em Montreal ele estava 1 minuto na minha frente. Em vez de poupar o carro, Mansell acelerou para quebrar o recorde, demonstrar que ele era o bom. O inglês conseguiu o recorde da pista na penúltima volta, sem a menor necessidade de fazer isto. Ele abandonou a poucos kms da bandeirada e eu ganhei o Grande Prêmio do Canada. O piloto tem toda a organização, a equipe, trabalhando pela vitória e não pode agir assim. A atitude dele é imperdoável.

     

    A característica de um piloto não se modifica com a experiência acumulada em anos de Formula 1. Ele até pode estar mais bem preparado fisicamente, mas técnica e mentalmente um piloto não muda. Se ele não é consistente, nunca vai ser. No início do ano, Mansell arriscou mais porque talvez não acreditasse na evolução da Williams. No final, quando o Williams reconhecidamente era o melhor, Mansell errou novamente.

     

    No campeonato do ano que vem, a McLaren vai levar uma ferrada se não construir um carro decente. Nas primeiras corridas, quando o Mansell sentir que o Williams é superior, o inglês vai tomar mais cuidado para evitar erros. Se Williams e McLaren forem iguais, Ayrton vai ganhar novamente o título porque o Mansell não tem condições de vencer. A história seria diferente se o piloto fosse o Alain Prost. Ou eu.

     

    Se num dia o Mansell faz uma corrida maravilhosa, no outro não chega em segundo lugar. Ou nem consegue completar a prova. Para ganhar um campeonato é preciso fazer pontos o ano todo. É ter consistência. Tem que ganhar, tem que ser rápido, mas tem que estar ali, na briga, pontuando. É o que falta ao doutor Nigel Mansell.

     

    A palavra chave para uma equipe vencer na Formula 1 é organização. Esta organização depende de um chefe de equipe, um líder, de pessoas especiais como são o Ron Dennis e o Frank Williams. Hoje está surgindo mais um: Eddie Jordan. A equipe Jordan ainda está engatinhando. Vencer na Formula 1 é muito difícil.  Em todas as categorias do automobilismo, Jordan provou ser um chefe de equipe talentoso. Sem dúvida ele vai chegar ao topo da Formula 1.

     

    Falando de cartolas, eu acho que a saída de Jean-Marie Balestre é uma perda. Ele é um homem temperamental, mas muito dedicado ao automobilismo. Balestre sempre ouviu os pilotos. Se hoje os autódromos e carros são mais seguros justiça se faça ao trabalho de Balestre.

     

    Na guerra da gasolina, a Ferrari, com a Agip, foi a primeira escuderia a usar novos combustíveis no final do ano passado. Por isto, o time italiano chegou junto e até superou a McLaren. Em seguida, nos testes de inverno europeu, antes do início da temporada de 91, a Shell-McLaren e Elf-Williams reagiram. A Mobil também criou um novo tipo de combustível para o motor Ford V-8 do Benetton.

     

    A proposta da Benetton para 91 era ambiciosa. Os patrocinadores investiram, John Barnard foi contratado para projetar o carro e estabeleceu-se um programa para vencer corridas e ganhar o título. O que foi que aconteceu? No período de um ano conseguimos
    apenas um estágio de desenvolvimento do motor – com mais trinta e tantos cavalos – e só usamos a gasolina especial, preparada pela Mobil, no Grande Prêmio do Canada.

     

    O motor que o Schumacher usou nos treinos de classificação em Adelaide – que eu nem usei – estava inicialmente programado para estrear no início do ano, no Grande Prêmio do Brasil.

     

    Se nas primeiras corridas deste ano o Benetton consumisse a gasolina especial, e contássemos com o novo motor, mais potente, o carro estaria competitivo para disputar o campeonato. No Grande Prêmio do Brasil, mesmo com o motor mais fraco, se já tivéssemos a gasolina especial, seria possível chegar em segundo lugar. Eu fiz as contas e concluí que o Benetton poderia virar quase 1 segundo mais rápido por volta.

     

    Por essas e outras eu decidi que só entro para correr em 92 com um carro competitivo. Ainda não assinei contrato com nenhuma equipe. Quando isto acontecer, e se acontecer, eu aviso.

     

    Estou preparado para abandonar a Formula 1, se for o caso. Por enquanto, estou de férias em Brasilia, convivendo com a família, revendo amigos e muito satisfeito com a minha revendedora de pneus Pirelli, inaugurada há duas semanas, que eu visito todos os dias.

     

    publicado em 10 de novembro de 1991

        O fato mais relevante no Campeonato de 91 foi que, pela primeira vez, a McLaren não tinha o melhor carro, o mais rápido, como aconteceu nas temporadas anteriores. A vitória da McLaren nas primeiras corridas se deve em … Leia mais