• 08/12/2011 - Tião Maia

    Fábulas fazendárias do senador Calheiros

    Georget, fazenda Água Fria, Santo Antonio do Descoberto, Goiás - foto Alceu

     

     

    O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-Alagoas), reafirma convicção sobre seus “rendimentos agropecuários” que garantiam a mesada de R$ 16.000,00 para a  jornalista Mônica Veloso, mãe de sua filha fora do casamento.

     

    A origem do dinheiro seria legítima porque as fazendas alagoanas do senador Calheiros registram altíssima produtividade.

     

    Por que não perguntar a quem conhece o assunto? Sim, quem entende de boi é fazendeiro.

     

    O senador Renan Calheiros é a bola da vez, a última piada por esse Brasil afora no fim de tarde nos alpendres das fazendas e nas rodas de bate-papo de pecuaristas.

     

    A conta não fecha. Nem que a vaca tussa.

     

    Um amigo meu, engenheiro civil, empresário, é também fazendeiro em Carlos Chagas, região leste de Minas Gerais. A propriedade é um primor de organização, de terra boa e capim excelente. O boi engorda com facilidade.

     

    Fazenda bem administrada, a capacidade de produção foi limitada em 600 cabeças para não detonar as pastagens. O escritório acompanha diariamente a cotação da arroba do boi para vender na melhor época ao frigorífico de Carlos Chagas, que tem uma linha de exportação para Israel, paga os melhores preços e ainda vai buscar o gado na porteira.

     

    Eu perguntei a ele – já sabendo a resposta – sobre a produtividade das fazendas do senador: 1.700 cabeças, lucro líquido de 1 milhão e 900 mil reais nos últimos quatro anos, de 2003 a 2006.

     

    – Impossível – disse de bate-pronto.

     

    Meu amigo acompanhou o noticiário sobre os “rendimentos agropecuários” de Renan Calheiros e achou muito estranha a declaração do gerente da fazenda. O capataz informou à reportagem do Jornal Nacional da Rede Globo que havia 1.100 cabeças. O senador desautorizou a informação. O total soma 1.700. A diferença atinge 600 cabeças, todo o gado da fazenda de Carlos Chagas.

     

    – Gerente não sabe quantas cabeças de gado tem na fazenda? O senador, que vive em Brasília e raramente vai à fazenda, sabe mais do que o gerente? Tem coisa errada. Gerente sabe esse número na ponta da língua. É a profissão dele que está em jogo. Se há divergência entre o senador e o gerente, a administração é precária. Vender essa quantidade de gado para açougue? Pecuarista só vende para açougue o boi que sofreu acidente, foi sacrificado. A venda é a preço vil, sem recibo. Açougue vai dar recibo por um, dois bois? Se há esse movimento todo na fazenda do senador não faz sentido que as vendas sejam feitas para açougue.

     

    Agora eu peço licença para contar a minha experiência. Eu trabalhei dois anos – duas temporadas de seis meses – em Queensland, Austrália, na administração do escritório da gigantesca Lawn Hill Station, a fazenda do lendário pecuarista Tião Maia.

     

    Apesar de ter sido em 1988 – quase duas décadas se passaram – a análise não perdeu prazo de validade.

     

    O gado australiano vale 3 vezes mais, em dólar, do que o boi brasileiro. A exportação de carne australiana concentra-se em dois mercados que pagam os melhores preços do mundo: Estados Unidos e Japão.

     

    A fazenda de Tião, latifúndio de 1 milhão de hectares, estava no fundo de poço se considerarmos a quantidade de bois, vacas e bezerros nos retiros. Eram 20.054 cabeças quando ali caberiam mais de 100 mil.

     

    Tião estava reformando o rebanho, substituindo a raça Short Horn, australiana, pelo gado indiano desenvolvido nos Estados Unidos, o Brahma, parente do Nelore, que é o mesmo animal das fazendas do senador Renan Calheiros.

     

    Eu vi, ninguém me contou. Sabem qual foi o lucro de Tião ao final da temporada de 1988?

     

    Ele apresentou-me as contas sorridente, orgulhoso:

     

    - 500 mil dólares australianos.

     

    O lucro líquido de Tião Maia na fazenda de 20 mil cabeças – quase 12 vezes mais que o rebanho de Renan –, vendendo o gado que precisava ser descartado, foi o equivalente a 900 mil reais.

     

    Senador Renan Calheiros, conte outra história. “Rendimento agropecuário” em Alagoas é conversa para boi dormir, uma tentativa tosca de iludir a opinião pública.


    publicado em 18 de junho de 2007

        O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-Alagoas), reafirma convicção sobre seus “rendimentos agropecuários” que garantiam a mesada de R$ 16.000,00 para a  jornalista Mônica Veloso, mãe de sua filha fora do casamento.   A origem do dinheiro seria … Leia mais

  • 31/10/2011 - Tião Maia

    Uma linda mulher e o Rei do Gado

    Tião Maia na sede da Lawn Hill Station, Australia - foto de John Andersen no livro "Bagmen Millionaires"

     

     

    A história é real. Não é uma fábula. Nada tem a ver com o então presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, que a mídia brasileira apelidou de “Rei do Gado” por causa dos fabulosos rendimentos nas inacreditáveis fazendas de Alagoas.

     

    O senador tentou explicar à opinião pública que a renda excepcional das fazendas alagonas sustentavam a amante, Monica Veloso, e a sua filha fora do casamento.

     

    A história é outra, bem diferente. O único ponto em comum, o gênero feminino, é também o ponto fraco do pecuarista Tião Maia e do senador  Renan Calheiros.

     

    O personagem é um autêntico monarca da pecuária de corte: o brasileiro Tião Maia (Passos, Minas Gerais, 1917 – São Paulo, São Paulo, 2005), proprietário de imensas fazendas na Austrália e investidor imobiliário nos Estados Unidos, principalmente em Las Vegas e Lake Tahoe.

     

    Tarde ensolarada, céu azul límpido, um dia comum no deserto de Nevada, em Las Vegas. Tião Maia pegou a chave do Mercedes-Benz conversível, convidou-me a passear pela cidade. No meio do caminho buscaríamos o Rolls-Royce dele na oficina. O carro estava pronto. Tião batera forte, desmaiara, não se lembrava das circunstâncias do acidente. A frente do Rolls ficou bastante danificada. O conserto demorou meses.

     

    A primeira parada do passeio foi na casa nova de uma de suas belas amigas, uma mansão de dois andares. O salão abria-se para o campo de golfe privativo do condomínio de luxo. A jovem amiga desceu a escada vestida de roupão. Moça de fino trato, recatada, correu para trocar de roupa logo que me viu. Eu achei prudente esperar no carro. Mais ou menos quinze minutos depois, Tião retornou ao meu encontro e contabilizou o custo-benefício.

     

    – É uma bela menina, mas ficou muito cara. Andou conhecendo uns árabes e está sempre viajando para Paris. Só quer voar de Concorde.

     

    Contornamos a periferia da cidade para conhecer novos bairros. Tião pensava em negócios até em dia de folga. Por que escolheu Las Vegas? No início era só um lugar tranqüilo para moradia e diversão 24 horas.

     

    As chances de bons negócios surgiram naturalmente. Investir em cassino foi a opção imediata, mas desistiu ao conhecer o rigor da burocracia e o excesso de controles sobre os ganhos. O segundo passo foi aplicar em terrenos e na construção de casas e condomínios. A valorização das terras na região apresentara rendimento excepcional, contrariando as previsões pessimistas de seus amigos que preferiram construir em Houston, Texas, e conseguiram resultados bem inferiores.

     

    A proximidade de Nevada com a Califórnia, o clima ameno durante todo o ano, livre de nevascas e sem interrupção das jornadas de trabalho, atraíram grandes corporações conectadas on line com as subsidiárias no território norte-americano e no mundo. O Estado de Nevada crescera mais do que a média nos Estados Unidos, impulsionada por Las Vegas, o novo pólo de desenvolvimento. A vida econômica da cidade não mais dependia de cassinos, turismo e shows.

     

    Tião mostrou-me um terreno de esquina que comprara há dois anos por US$ 100 mil. Em apenas uma fração, vendida para a Texaco construir um posto de gasolina, ele lucrou US$ 500 mil. Sem contar que o posto Texaco agregou valor à área remanescente.

     

    Tião filosofava sobre negócios e lazer.

     

    – Duas coisas quebram um homem. Terra ruim e mulher boa. Eu só aumentei meu patrimônio em Las Vegas, lugar de terra ruim e mulher boa. Eu saio todas as noites. Se eu não quebrei até agora, eu não quebro nunca mais.

     

    Já estávamos perto da oficina autorizada Rolls-Royce. Ao passar por um bar com mesas na calçada, Tião relembrou que naquela rua, guiando o Mercedes, vivera um episódio exemplar.

     

    Uma loura, linda, parou no sinal ao seu lado, a bordo de um vistoso conversível. O instinto caçador atiçou-lhe a vontade de acelerar no encalço da louraça. Algumas quadras adiante, ela respondeu aos acenos, sorrisos e olhares. Ele sugeriu que retornassem para uma conversa no bar. A loura espetacular manobrou o carro e o seguiu. Mais rápido, Tião chegou na frente e a esperou diante da mesa para impressioná-la com o gesto de cortesia. A beleza loura apresentou-se, o coração de Tião disparou. A louraça espetáculo era imensa, obesa, sobrava mulher no vestidão folgado. Ela estava animadíssima, alegre, falante, cheia de amor para ofertar, e o sedutor arrependido buscava uma saída de emergência.

     

    A parábola da loura big mac foi encerrada com uma lição.

     

    – Eu não paquero mais uma mulher dentro de carro. A gente só conhece a mulher quando ela está de pé.

     

    publicado em 13 de agosto de 2007

     

        A história é real. Não é uma fábula. Nada tem a ver com o então presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, que a mídia brasileira apelidou de “Rei do Gado” por causa dos fabulosos rendimentos nas inacreditáveis fazendas … Leia mais