• 01/03/2012 - Entrevistas, Trabalhismo

    O Brasil perdeu a chance?


     

     

    Qual é o papel do sindicalismo hoje no Brasil? Essa e outras perguntas foram respondidas por Walter Barelli durante uma longa entrevista quando ele ainda era deputado federal, suplente, pelo PSDB de São Paulo.

     

    Sem preconceito e juízos precipitados, Barelli colocou o dedo na chaga do sindicalismo: os líderes sindicais não sabem o que fazer quando precisam enfrentar o drama do desemprego.

     

    Ministro do Trabalho no governo Itamar Franco, mestre em Sociologia, doutor em Economia, o ex deputado federal Walter Barelli ( PSDB-São Paulo), 71 anos, conhece profundamente os meandros e as manhas da política sindical e do trabalhismo.

     

    Diretor técnico, em São Paulo, durante 22 anos do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos), Walter Barelli, acredita que o presidente Lula perdeu a chance histórica de mudar a face do trabalhismo no Brasil.

     

    Ele aponta a falta de visão dos sindicalistas ao não saberem enfrentar o principal dilema do trabalhador brasileiro ante a revolução econômica: o desemprego crescente a partir da década de 90.

     

    “Sindicato não sabe o que fazer quando se vê diante do desemprego”.

     

    Na opinião de Barelli, há um visível envelhecimento das lideranças sindicais, acomodação nas negociações salariais e conseqüentes perdas para a massa de trabalhadores.

     

    Com estudada ironia, ele ainda vê um sopro de esperança pois em política no Brasil tudo é possível: “Já vi defunto ressuscitar”.

     

    Católico praticante, Walter Barrelli crê que só mesmo o milagre da ressurreição salvaria as promessas de campanha em contraponto às ações do governo do presidente Lula.

     

    A atual crise política, uma das mais graves de toda a história republicana, nasceu em partidos trabalhistas – PTB e PT – e a cada dia surgem mais e mais surpresas desagradáveis. Afinal, qual é o futuro do trabalhismo no Brasil?

     

    Walter Barelli -  O trabalhismo acabou e renasceu, praticamente, duas vezes.  Quando se fala que no Brasil temos o ‘capitalismo tardio’ é preciso notar que também demorou a existir um movimento sindical forte.

     

    O pacto montado com os empresários por Getúlio Vargas no Estado Novo sobreviveu até o governo Juscelino Kubitschek.  Depois houve uma longa transição. João Goulart, um trabalhista histórico, tentou alguma reformulação. Uma das características do trabalhismo histórico,  comparado a outros países, é que os salários cresciam por meio de negociações ou de políticas governamentais.

     

    Ou seja, com medidas que se convencionaram chamar de sociais democratas.  A longa crise do trabalhismo começou no governo Jânio Quadros, seguiu-se no parlamentarismo de ocasião com João Goulart, e logo depois com os militares. No regime militar os trabalhadores foram perseguidos.

     

    O renascimento ocorre na década de 70, principalmente com as greves de 1978. As mais expressivas começaram na indústria automobilística, em São Bernardo. O grande líder chamava-se Luiz Inácio, o apelido era Lula.

     

    Esse movimento, que se espraiou pelo Brasil inteiro, ajudou muito na redemocratização do país. Criou, durante um período, um modelo de negociação coletiva séria porque se percebeu que o importante era melhorar a situação salarial dos trabalhadores. Naquela época houve avanço, mas depois as negociações passaram a ser mais “teatralizadas” do que reais. O movimento continuou porque tinha conquistado o poder em vários sindicatos. Consolidou-se primeiramente em duas centrais sindicais. Depois foram divididas em seis ou sete, tal como existe hoje.

     

    Se o PT nasceu do movimento sindical, liderava o movimento trabalhista, agora como fica a classe trabalhadora? Havia um movimento e um partido. Agora, não há sinais de movimento. E quanto ao partido, nem seus próprios dirigentes sabem dizer qual é o rumo.

     

    Walter Barelli – Getúlio Vargas criou o PSD (Partido Social Democrático) e o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). O PTB era o partido dos trabalhadores ou dos sindicalistas.  Nas mãos de Golbery do Couto e Silva, no regime militar, o PTB passou a ser a sigla reservada para Ivete Vargas.

     

    Quando Leonel Brizola voltou do exílio, ele não conseguiu a sigla PTB. Foi obrigado a criar o PDT (Partido Democrático Trabalhista).  Dos trabalhistas antigos, alguns ficaram no PTB, e acho que a maioria dos trabalhistas históricos ingressou no PDT.

     

    Na prática política, eles mudaram várias vezes de partido. Os partidos não tinham mais a característica de representação dos trabalhadores.  Houve apenas um, que é o PT. Essa foi a grande novidade. Criado por trabalhadores, o Partido dos Trabalhadores nasceu segundo a idéia de ser um partido de massa e um partido classista.

     

    Os analistas demonstram que há três grandes blocos nUo PT. Primeiro, os sindicalistas, agregando as comunidades de base da Igreja Católica e também algumas evangélicas. Segundo, uma facção marxista-leninista, que seria a facção José Dirceu, ou que tiveram origem em militâncias do Partido Comunista e assemelhados. Terceiro, grupos de trotskistas distribuídos em várias facções.

     

    O Partido dos Trabalhadores, quando chegou ao poder, preparou uma pauta geral de reformas: 1) reforma tributária; 2) reforma previdenciária 3) reforma sindical e trabalhista. De toda a pauta, fez-se muito pouco de reforma tributária. Ficou devendo.

     

    Na reforma previdenciária houve apenas mudança no Estatuto Previdenciário do Servidor Público, já que a dos trabalhadores celetistas tinha sido feita. Mesmo assim, é uma repetição do que ocorrera, mas desta vez com o servidor público, o único segmento que ganhava aposentadoria diferenciada. Embora contribuísse durante toda a vida, o funcionário público recebia a aposentadoria pelo salário  final da carreira.

     

    A reforma sindical e trabalhista, como foi anunciada, seria obra do segundo ano de Governo. A reforma trabalhista não existe. Somente no terceiro ano apresentaram apenas a reforma sindical. Em março de 2005, o ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, encaminhou o projeto de reforma sindical, que não agradou. Foi recebido com vaias e protestos de trabalhadores e sindicalistas. A reforma de Berzoini volta no tempo pois é contra o projeto sindical de São Bernardo. O argumento básico é que esta foi a reforma possível.

     

    O que esse Governo está dizendo?  O que é possível fazer, em termos sindicais, é esse projeto. Para mim, o projeto de reforma sindical apresenta pontos de retrocesso, principalmente no que se refere a dar poder maior sobre os sindicatos. A Constituição de 1988 retirou esse poder do Ministério do Trabalho, item que está presente na homologação dos sindicatos e nos Estatutos dos sindicatos.

     

    Seria o retorno à Getúlio Vargas e seu controle sobre os trabalhadores e  sindicatos?

     

    Walter Barelli -  É a volta de Getúlio, ele que foi repudiado ao longo de todo esse tempo.  Na ditadura podia se conhecer muito pouco, principalmente nas fábricas, da cultura do movimento sindical anterior. Naquela época, xingar Getulio era uma coisa. Hoje, conhecer historicamente o papel de Getúlio, é outra. Getúlio fez uma grande reforma econômica e uma legislação trabalhista durável, que permanece até hoje.

     

    A reforma trabalhista não existe, nem vai existir no Governo Lula?

     

    Walter Barelli – O que há é alguma coisa de negociação coletiva no projeto de reforma sindical, mas mexer na reforma trabalhista… Chegaram a criar um Fórum no Ministério do Trabalho para tratar disso, mas ninguém discute. Nem sei se eles se reúnem.

     

    No Governo Lula não sai reforma sindical e reforma trabalhista?

     

    Walter Barelli -  Nem a sindical, nem a trabalhista.

     

    O PT lutou mais de duas décadas para chegar ao poder, realizar reformas e nada de significativo conseguiu fazer?

     

    Walter Barelli -  É… João Goulart, quando foi Ministro do Trabalho, aumentou o salário mínimo em cem por cento.  Por isso foi considerado comunista pela direita da época.  Não queriam que Goulart assumisse a Presidência da República por ocasião da renúncia de Jânio Quadros porque o comunismo dele se refletiria numa política de salários elevados.

     

    No Governo Lula verifica-se uma continuidade. O salário mínimo – o único do qual dispomos de uma série histórica – vem crescendo, mas é muito pouco. O salário mínimo está aumentando desde o governo Itamar. O processo começou nesse período. Ainda registram-se flutuações, mas está em processo ascendente.  Ainda assim é muito, mas muito menor do que o salário do tempo de Juscelino Kubitschek, que não era um trabalhista. Era aliado dos trabalhistas, Presidente da República pelo PSD.

     

    O atual governo, na prática, foi diferente.  Lula falava um discurso para ganhar as eleições. Quando chegou lá, nem concretizou o que dizia durante a campanha. tais como Fome Zero etc.

     

    A principal característica desse Governo é que não existe projeto de Governo. Qual é o projeto do Governo Lula?  Fome Zero? É apenas a continuidade dos programas sociais do governo Fernando Henrique.

     

    Outro aspecto de novidade seria uma política externa diferente. Efetivamente, o Lula é um brilho, ou brilhou, nos cenários internacionais.  Foi recebido mais de uma vez no Grupo dos 8 (Reunião anual dos chefes de Estado e de Governo dos oito países mais industrializados do mundo: Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia).

     

    Agora, concretamente, os candidatos brasileiros não ganharam nenhum dos cargos para os quais concorreram na Organização Mundial do Comércio (OMC) e no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Algumas coisas podem amadurecer ao longo do tempo, mas não estamos vendo capitais árabes ingressarem no País, nem grandes importações árabes. Nem grandes importações africanas, da Namíbia, do Gabão, ou sei lá de que outros países visitados por Lula. Outro grande projeto é o bio-diesel, que parece importante, mas isto não justifica um Governo.

     

    O sindicalismo no Brasil seria um projeto sem futuro?

     

    Walter Barelli -  Não há um projeto para o trabalhador. Na campanha presidencial Lula prometeu dobrar o salário mínimo. Isso não vai se verificar.  Outro projeto seria o quê?  Dez milhões de empregos?  Quem está recuperando emprego não é a política governamental e sim o preço das commodities no mercado externo, o que torna possível o Brasil se agüentar com a taxa de câmbio ultra-valorizada como temos hoje.

     

    A reforma sindical hoje perdeu o sentido? Nem seria mais necessária?

     

    Walter Barelli -  É necessária, mas não precisamos de lei, nem de Reforma Cconstitucional. Quando a Constituição de 1988 possibilitou autonomia aos sindicatos, o que isto significou? Você cria o sindicato que quiser, do jeito que você quiser, que age do jeito que você quiser, desde que se consiga espaço na sociedade. Ninguém percebeu isso, ou poucos perceberam. Existem alguns sindicatos que preferem nem ter presidente. Funcionam tal como os sindicatos europeus com um Secretário Geral e uma Diretoria Colegiada.

     

    Foi isso que os sindicatos mais politizados fizeram. No Brasil você não precisa intervir nos sindicatos. Nem pode. Os sindicatos então têm toda a liberdade de atuar, desde que se fortaleçam nas suas bases, que tenham boas propostas e atuem, realizem.

     

    O sindicato que foi do Lula, Metalúrgicos do ABC, faz eleição em processo quase permanente. Nesses esquemas eleitorais cada fábrica indica seu representante para o sindicato.  É o único sindicato que faz isso. Essa prática não está no projeto de reforma que foi apresentado. Nem deveria estar. É uma experiência. Vai tocando, está dando certo, e até agora lá deu certo, que frutifique por mil anos.

     

    Por que está ocorrendo falta de combatividade dos sindicatos, o que houve com o tradicional espírito de luta dos movimentos sindicais?

     

    Walter Barelli – Em 1978, trabalhadores e dirigentes sindicais revoltaram-se contra a sindicalismo da época. Uma parte desses trabalhadores e dirigentes chegaram à conclusão que precisavam fundar um partido. Hoje, o Presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, é o Presidente do PDT de São Paulo.  A Força Sindical é uma central importante, principalmente em São Paulo. No Brasil todo seria a segunda central ou a primeira, dependendo das próximas eleições nos sindicatos ligados à CUT (Central Única dos Trabalhadores).

     

    No entanto, aparentemente, a crise política é mais do PT do que da CUT. Nos anos 70, os sindicatos se dedicaram a um projeto de  Governo, participaram ativamente da Constituinte de 1988, criou-se o  Departamento Intersindical de Assessoramento Sindical (DIAP), em funcionamento ainda hoje. Até a atuação parlamentar passou a ser importante.

     

    Agora, faz-se um Governo com um presidente de sindicato e 17 sindicalistas como ministros, mas eles não estavam preparados para ser Governo.

     

    O Lula é um grande dirigente. Ele pode representar o Brasil, mas a complexidade de gerir  um país é difícil para os 17 mais 1 que formam esse Governo.

     

    Os sindicatos não têm mais o que fazer? Têm sim.  Há dois pontos que convergem na mesma direção.  Primeiro, eu sempre disse que o calcanhar de aquiles dos sindicatos era o desemprego.  Estamos em crise desde 1980, com desemprego crescente desde 1990.  Os anos 80 foram a década de ouro do sindicalismo brasileiro, época da criação das centrais, das greves, da nova Constituição. A direção de vários sindicatos mudou na década de 80.

     

    A década de 90 foi de continuidade da política anterior. Só que sindicato não sabe viver quando se vê diante do desemprego.  Não tem boas propostas. Desde 1980 vivemos uma revolução econômica e, a partir de 1990, surge a sua face na questão referente ao desemprego.  É um fator que enfraquece o sindicato. Segundo, as crises econômicas e o desemprego são anti-sindicais. É o que eu chamaria de ‘domesticadora da ação sindical’.

     

    É preciso muita garra para dizer: vamos protestar na rua porque despediram 1.000 empregados da minha empresa.  Até é possível fazer um protesto no jornal, mas quem vai sair na rua?  Dois ou três?  Porque os 1.000 demitidos ainda têm disposição, se reúnem, mas se continuaram 3.000 empregados, eles não se juntarão para protestar com os outros 1.000.

     

    Quando eu fazia os estudos do Dieese, a Volkswagen empregava, se não me engano, 40.000 trabalhadores.  Hoje está reduzida a 7.500.  O modelo de sindicalismo de massa, da empresa que crescia, empresa grande, hoje há um trabalho de enxugamento que atinge diretamente o sindicalismo. Corta na carne. Os sindicatos perdem lideranças. Não perdem os que estão no trono porque têm estabilidade, mas a base é dizimada. O pessoal fica com medo do facão. Quem levantar a cabeça é capaz de ser cortado.

     

    É preciso refazer tudo. Esse é um fator difícil de lidar, o que domestica os líderes mais nervosos.  Há ainda outro fator:  a acomodação.  Afinal de contas, acabou a inflação, argumenta-se que o sindicato está negociando, o sindicato está fazendo o que pode.  Além disso, existe também o envelhecimento. O pessoal, vamos dizer assim, amoleceu no poder sindical.  Não existe hoje oposição sindical. Não conheço, não vejo oposição sindical.  Pode até existir, em algum ou outro tópico, mas o movimento de oposição sindical antes era tão forte que decretava uma greve mesmo quando o sindicato não queria.  Hoje não existe mais nada disso.

     

    Ainda assim, o presidente Lula teria coragem ou vontade política para efetuar uma reforma  trabalhista no Brasil?

     

    Walter Barelli – Com a reforma trabalhista ele perderia os aliados que conquistou para ganhar o poder.  Quais são os nomes que Lula convidou para constituir o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social – o Conselhão? Quem ele considerava representativo, mas também quem o tinha apoiado na eleição.  Os grandes empresários financiadores estão lá. Todos os que o apoiaram estão nesse Conselhão.  Não é um Conselhão que faria grandes mudanças, mas também não impediria Lula de fazê-las.

     

    Os empresários que estão lá não aceitaram o cargo para fazer a reforma trabalhista, mas, dos que eu conheço, muitos aceitariam o Lula propondo mudanças na legislação trabalhista. Eles acreditavam que Lula era o único capaz de fazer a reforma sem grandes protestos. Assim eles teriam um custo menor. Aceitariam fazer junto com o Lula. Perdeu-se a chance.

     

    O senhor acredita que a chance histórica do Lula já era?

     

    Walter Barelli -  A chance histórica do Lula, aparentemente, sim, mas no Brasil eu já vi ressuscitar defunto.

     

    Ainda resta uma esperança?

     

    Walter Barelli -  Não, mas eu conheci em São Paulo um político chamado Adhemar de Barros. Ele perdia e depois voltava a ganhar. Havia outro político chamado Jânio Quadros, que perdia e depois voltava a ganhar.  Estamos no Brasil. Não estou dizendo o que vai acontecer, mas já aconteceu.  É lógico que o Lula vai sair muito baleado dessa primeira experiência de Governo. Ou única experiência de Governo.

     

     

    No documentário ‘Entreatos’, de João Moreira Salles, que mostra os bastidores da campanha presidencial do PT, Lula fez uma longa digressão sobre a sua trajetória política e se comparou ao polonês Lech Walesa (ex presidente do sindicato Solidariedade e ex presidente da Polônia). Ele se dizia diferente do líder polonês e que Lech Walesa, na verdade, era um ‘pelegão’.

     

     

    Walter Barelli – ‘Pelegão’ é um apelido que se coloca em trabalhadores e dirigentes sindicais.  Enquanto Lula foi dirigente, ele era o que se chamaria hoje de dirigente sindical combativo.  Como governante, ele não guarda nenhuma lembrança do líder combativo, mas eu nunca ouvi um Presidente ser chamado de ‘pelego’.

     

     

    publicado em 20 de junho de 2007

        Qual é o papel do sindicalismo hoje no Brasil? Essa e outras perguntas foram respondidas por Walter Barelli durante uma longa entrevista quando ele ainda era deputado federal, suplente, pelo PSDB de São Paulo.   Sem preconceito e … Leia mais

  • 01/03/2012 - Entrevistas, Literatura

    Manés & Bacanas

     

    Por falta de uma bolsa de estudos que garantisse o sustento de um cearense na Universidade de Columbia, o que seria mais uma tese de mestrado na academia norte-americana transformou-se na melhor referência lexicográfica de gíria brasileira.

     

    A partir da seleção de 6 mil verbetes na primeira edição, em 1990, até a sétima, em 2005, João Bosco Serra e Gurgel compilou 28.500 apontamentos em seu Dicionário de Gíria.

     

    A próxima edição, já quase pronta, deverá registrar 33.500 verbetes, bem perto de abranger todo o universo de gírias brasileiras em uso corrente, estimada entre 30 a 40 mil palavras e expressões idiomáticas. O Dicionário de Gíria é consultado em bibliotecas de Lisboa, Washington, Berlim, Hamburgo e Tóquio.

     

    O site Dicionário de Gíria/Jornal da Gíria foi acessado mais de 500 mil vezes desde o lançamento em 2000. Visite http://www.cruiser.com.br/giria/

     

    Graduado em Ciências Sociais e Antropologia pela UFRJ, Serra e Gurgel não festejou a formatura em 1968, ano em que a ditadura militar atirou-nos o Ato Institucional nº 5.

     

    Jornalista de profissão, trabalhou em várias redações e assessorias de imprensa, ensinou Comunicação na Universidade de Brasília por 24 anos até se aposentar e fixar residência em Niterói com a mulher, filhos e netos. A aposentadoria está longe de ser ócio remunerado.

     

    Ele continua na ativa entre Brasília e Niterói. De terça a quinta assessora uma entidade privada em Brasília e viaja para o lar doce lar à noite, em tempo de bater ponto no almoço de sexta-feira com seus velhos amigos.

     

    Pesquisa gíria, anota, estuda, atualiza o site e ainda chefia a edição do jornal da ‘Casa do Ceará’, em Brasília. A linha editorial obedece à risca o princípio de citar o nome do conterrâneo e a cidade natal.

     

    A seguir, entrevista sobre gíria, lingüística e cultura brasileira com João Bosco Serra e Gurgel, 64 anos, nascido em Acopiara, região central do sertão cearense.

     

    A gíria empobrece a língua brasileira?

     

    Já afirmei que gíria empobrecia a língua, especialmente no começo dos meus estudos, quando caminhava com muita timidez entre os puristas do idioma. Gíria não empobrece a língua. Hoje acredito que a gíria renova muito mais do que empobrece a língua. O que a empobrece é a forma como é ensinada, irresponsavelmente, por autoridades corruptas e educadores incapazes. Antes de falarmos em padrões sócio-econômicos desiguais citemos os fatores educacionais e culturais limitados e incultos, sem a necessária formação, capacitação e habilitação. Isto é o que gera a pobreza cultural. Você tem hoje tantos analfabetos funcionais ricos quanto pobres. Por que? Porque ricos e pobres não estudam, não lêem, não se civilizam. Educação e cultura têm relação direta com o saber, não com o dinheiro. Os ricos, pretensamente, poderiam ser mais cultos do que os pobres, mas não são. Há um certo nivelamento. A gíria tanto é a língua dos ricos como é dos pobres deste Brasil. Todos falam e todos se entendem.

     

    Você conceitua gíria como ‘modismo lingüístico’. No entanto, o Dicionário da Gíria contém palavras já incorporadas ao vocabulário corrente da língua brasileira desde o início do século 18.

     

    O modismo é uma sistematização minha, portanto recente. Não é ciência, talvez uma tese ou uma propositura. Os dicionaristas brasileiros, recentemente, quando dicionarizam uma gíria fazem questão de relacioná-la como gíria. É um cuidado lexicográfico e bibliográfico. Por exemplo, o termo ‘baiuca’ ou ‘bayuca’ – sinônimo de taverna – foi dicionarizada como gíria pelo padre Raphael Bluteau em 1712. Qual o fundamento? Não sei. Nas ‘Infermidades da Lingua’, de 1759, há outros 1.500 termos que foram empurrados para a gíria pelos puristas da época que não consideravam correto o emprego daquelas palavras. Muitas outras gírias nasceram desta forma. Hoje a velocidade é outra, principalmente porque neologismos e vocábulos vão surgindo por vários processos de construção da linguagem. O conceito de modismo funciona como um ciclo de vida: nasce, cresce, se desenvolve e morre. No caso da gíria, ressuscita, volta, entra em novo ciclo. O acervo global da língua portuguesa é composto por 500-600 mil vocábulos, mas tão somente 200-250 mil estariam na língua viva. Os demais na língua morta. No caso gírio também. Estimo que o acervo gírio esteja na faixa de 60-80 mil palavras, mas a gíria viva está na faixa de 30-40 mil. Na gíria há termos e expressões de curta duração, mas há os de longa e média também. Modismo é isso.

     

    Sete edições e quinze anos depois, como foi essa trajetória criar e lançar o seu Dicionário de Gíria, hoje com 28.500 verbetes na 7ª edição?

     

    Quando me graduei em Ciências Sociais, caminhei para a Antropologia Cultural, que tem fronteira com a Lingüística Social. É uma estória longa. Esperava fazer o mestrado em Lingüística Social na Universidade de Columbia, Estados Unidos, onde fui aceito, mas não tive condições de fazer o mestrado. E ficou por isso mesmo. Escrevi a tese e reuni 6 mil gírias para justificar o enredo. A solução foi concluir a tese sem orientador. Aproveitei o glossário de gíria e fiz um livrinho. Tive o estímulo de Antonio Houaiss para seguir em frente, e fui. Na próxima edição serão acrescentados exatos 5.000 verbetes. Dependendo do andar da carruagem espero chegar aos 33.500. Até a 7ª edição incluí apenas gírias brasileiras. A partir da 7ª incorporei gírias portuguesas e na 8ª, espero, além de ampliar o acervo de gírias portuguesas, incorporar gírias de Moçambique e de Angola. As de Moçambique estão comigo. Pensava em me estender até Cabo Verde, mas decidi não incluir nesta próxima edição.

     

     

    Ser editor independente no Brasil, de uma obra de consulta, é uma atividade promissora?

     

    Qualquer escritor/autor é triturado por um sistema cruel. A consignação custa 50% em quase todas as distribuidoras/livrarias. Nenhum produto no Brasil, com inflação baixa, tem uma margem de lucro tão alta em detrimento do produtor. Se você é escritor consagrado, a prosa muda. Neste setor temos o espectro parecido com o corredor de fórmula 1. Se você é contratado por uma escuderia, você ganha. Se não é, paga para correr.

    Qual é o público leitor que pesquisa gíria?

     

    Pesquisador, tradutor, estudante. Os lingüistas não gostam e discriminam a gíria. É ignorância, mais do que preconceito. Consideram-se puristas, mas estão ultrapassados. Perderam o bonde da História. A gíria é altamente regenerativa da língua.

     

    Quem o procura para conhecer gíria?

     

    Geralmente mães aflitas para fazer o trabalho de um filho, na noite anterior. Algumas têm a cara de pau para pedir que eu faça o trabalho. Dou as dicas, mando consultar o banco de dados do meu site ‘Dicionário de Gíria’. Há também estudantes que querem conhecer gíria para fazer monografia, mas querem o livro de graça.

     

    Como é o seu método para pesquisar gírias?

     

    Em primeiro lugar, as mídias. Em segundo, livros. Em terceiro, ouvir grupos que falam.

     

    Qual é o critério para incluir verbetes no Dicionário de Gíria?

     

    Palavras que tenham ultrapassado a fronteira do regionalismo. O regionalismo é gerador de gíria, como todos os demais grupos exclusivos. Quando a gíria deixa de ser exclusiva e cai na vala comum, então será incluída. É o que acontece com as gírias de ‘rappers’, ‘grafiteiros’, etc.

     

    A internet facilita o seu trabalho de pesquisa?

     

    A internet facilita tudo, aproxima as pessoas, mas não me atrevo a trabalhar com o sincretismo cibernético. É uma linguagem que tem a mesma velocidade da tecnologia que a transmite. Muitas instituições têm outras prioridades e não colocam seus acervos principais na web. Portanto, vai demorar até dispormos de acervos gírios na internet.

     

    É surpreendente a curiosidade que o ‘Dicionário de Gíria’ desperta em outros países. No Japão, por exemplo. Como se explica esse interesse?

     

    A gíria é a linguagem falada, a linguagem usual, das ruas. As pessoas não querem saber como falam os sábios, os gramáticos, os dinossauros da linguagem, os lingüistas. Querem saber como o povo fala. No Japão vivem 300 mil brasileiros, alguns com vários anos lá. Como a televisão brasileira está alcançando vários países, inclusive o Japão, para entender a linguagem corrente eles querem saber o que é gíria e o que é língua padrão. A gíria é cultura, patrimônio imaterial de um povo, sua linguagem afetiva, diária, instantânea, impulsiva. No Brasil há o agravo de que os baixos índices de leitura, derivados de educação insuficiente, levam as pessoas a ter vocabulário reduzido. Ou, como afirmo, um equipamento lingüístico incipiente. Se não houvesse gíria os brasileiros não se entenderiam. Os regionalismos, se não fossem compreendidos fora das fronteiras regionais, teriam derivado para dialetos.

     

    O Brasil não tem dialetos. No entanto, você cita o a gíria como ‘idioma gírio’. Qual é a origem desse conceito? Você o criou?

     

    Não o criei, nem sei quem é o pai. Pode ser bastardo. Esse negócio que o Brasil não tem dialetos é uma afirmação feita no Império. Poucos se dão conta que a primeira língua dos brasileiros não foi o Português, mas o Tupi. E poucos se dão conta que contribuição africana não é forte na nossa linguagem. A indígena é. Como é a européia. Amadeu Amaral nos idos de 1920 escreveu ‘O Dialeto Caipira’ para mostrar como os paulistas do interior falavam e continuam falando. Oitenta e seis anos depois a tese de Amaral continua válida. Há muitos outros dialetos. Pensávamos, todos os estudiosos do idioma, que os regionalismos desapareceriam com o tempo, com o ensino da língua padrão. Ledo Ivo! Só cresceu, considerados os aspectos morfológicos e fonéticos de várias regiões brasileiras. A tendência é se acentuar. Por exemplo, o minerês, o cearês e o bahianês.

     

    Gíria no Brasil, calão em Portugal?

     

    Em Portugal eles chamam gíria de calão. No Brasil, há o adendo do ‘baixo calão’ para o palavrão. O palavrão contextualizado há muito tempo que é gíria.

     

    Haveria uma certa mobilidade da gíria entre as classes sociais no Brasil?Ou seja, palavras de gíria são usadas democraticamente pelas classes mais ricas e pelas mais pobres.

     

    É verdade. Se não fosse assim a gíria seria linguagem exclusiva de grupos, facções, tribos. A mobilidade social acompanha os indivíduos. Essa mobilidade é o que mantém o equilíbrio do tecido social brasileiro. Não houvesse mobilidade certamente o brasileiro cordial teria virado obra de ficção. Você tocou num ponto que não uso, mas a gíria tem esse caráter democrático. Mas é efeito, e não causa. A gíria é recorrente de todas as classes.

     

    Você confiou mais na intuição para escrever as sucessivas edições do Dicionário, ou seguiu os conselhos de Antonio Houaiss, que não escondia a admiração pelo seu trabalho?

     

    Sigo os conselhos de Houaiss, que me foram transmitidos por escrito. Pesquisar sempre, verificar fontes, filtrar, afinar. É o que venho fazendo. Procurando identificar a data e os locais de nascimento de muitas gírias. A lexicografia é imprescindível a qualquer idioma. É complexo qualquer aprofundamento. Faço na medida de minhas possibilidades. Por exemplo, já me sinto preparado para elaborar um ‘Atlas da Gíria do Brasil’ e um ‘Atlas da Gíria na Língua Portuguesa’, mas é um projeto caro. Não tenho condições de tocar sozinho, mas certamente de liderá-lo. Precisaria, entretanto, de financiamento de instituições que queiram se preocupar com o futuro da língua, o principal patrimônio de todos os povos da terra. Só que as instituições, sejam públicas ou privadas, têm outras prioridades. No Brasil, a primeira prioridade na defesa da língua seria ensiná-la de forma correta e acabar com os dois tipos de analfabetismo que temos: o funcional e o da ignorância. Considero o analfabetismo funcional mais grave que o analfabetismo da ausência de conhecimento do beabá.

     

    publicado em 17/07/2007

      Por falta de uma bolsa de estudos que garantisse o sustento de um cearense na Universidade de Columbia, o que seria mais uma tese de mestrado na academia norte-americana transformou-se na melhor referência lexicográfica de gíria brasileira.   A … Leia mais