23/01/2013 - Poesias

A superioridade da mulher

Hileana Menezes – foto Alceu


Em tempos remotos
o sexo dos anjos se discutia.
A polêmica vazia
em filigranas
no tempo se perdia.

 

 

Ainda hoje desvai-se o tempo em alegorias.
Se o que parece melhor, um campeão,
é na verdade uma fraude, frustração.
Se o super-homem de Nietzche mais valia
do que a força da pureza de Maria.

 

 

A teoria pode lhe parecer cínica,
vulgar, sem rumo,
fora de prumo, assimétrica,
mas explica-se pela ciência exata.
É pura e simples aritmética.

 

 

A igualdade está na diferença.
Se mais for menor do que menos
resulta em menos.
Menos com menos é demais.

 

 

No bar da esquina
a lucidez diluída em álcool
o pessoal embaixo assina:
a conta está certa,
quem fala muito não faz.
O homem não presta
e as mulheres são todas iguais.

 

 

 

 

Notas & Informações

 


A construção de um poema, dedicado à professora Fernanda Schnoor


 

Quem é Fernanda Schnoor, a Flor do Silvestre?

 

 

No Rio de Janeiro, Fernanda Schnoor foi minha professora de inglês, uma esplêndida professora. As aulas eram na casa dela, no bairro de Laranjeiras, final da rua general Glicério, um conjunto de prédios antigos com espaçosos apartamentos de pé direito alto e floreiras nas janelas. Da varanda da professora Schnoor avistava-se o apartamento do poeta Alphonsus de Guimaraens.

 

A turma era formada por meia dúzia de alunos, entre homens e mulheres. Das leituras de trechos em prosa e poemas, as lições derivavam para extensas digressões da mestra sobre histórias fantásticas da Idade Média, transbordando erudição com palavras em inglês arcaico. Ela se deliciava em contá-las e nos divertíamos bastante apesar de nosso limitado conhecimento desses temas.

 

Certo dia, certamente por causa de uma banal desavença ideológica com o namorado, professor de filosofia, a mestra fez uma brilhante dissertação acerca da fragilidade masculina, da miséria intelectual do homem e outros insultos que o coração lhe ditava.

 

Resolvi desafiá-la. Minha única arma diante de tal disparidade de forças foi a ironia, o deboche, a brincadeira. “Professora, homem e mulher é tudo igual”. Por que falei? Não sei. Eu tinha que agir depressa, encerrar imediatamente o debate.

 

Se a professora Schnoor replicasse, eu estaria aniquilado, retornaria ao pó de origem da minha condição humana, seria uma alma penada na busca desesperada pela reencarnação. Meu golpe fatal, definitivo, foi dizer que provaria a verdade da minha tese na aula seguinte, em poesia, mas em português. Jamais me atreveria a escrever em inglês para submetê-la ao crivo implacável de Lady Schnoor.

 

 

A Flor do Silvestre

 

 

Algumas semanas antes visitamos a professora Schnoor no Hospital do Silvestre, no Alto de Santa Tereza, uma linda paisagem, onde ela se recuperava de uma pequena cirurgia. É claro, levamos flores. Para entusiasmá-la, sem faltar com a verdade, eu disse que o nosso presente fora equivocado, redundante. A nossa professora, por si, era uma flor de mulher.

 

O apelido colou. Talvez fosse necessário um título gentil agregado ao nome Fernanda, em contraponto ao sobrenome de forte pronúncia e origem burguesa. ‘Schnoor’, alemão, significa ‘faxineiro, limpador de chaminé’.

 

 

A equação feminina

 

 

Assisti um show do cantor João Bosco no Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro. Pouco antes de começar o espetáculo, notei que o grande poeta Aldir Blanc, parceiro de Bosco, circulava à frente do palco para defender um troco na direção de iluminação.

 

Assim é a vida. Sobreviver de poesia é fazer acrobacias. Psicanalista de profissão, Blanc abandonou a tarefa de ouvir tonterias e mergulhou em seu próprio universo. Escreveu letras belíssimas, as melhores de Bosco e Blanc.

 

Antes de cantar “Dois pra lá, dois pra cá”, João Bosco contou que nos bailes de sábado da cidadezinha do interior de Minas Gerais, onde nasceu e viveu a adolescência, o mais difícil era vencer a timidez e convidar a mocinha para dançar.

 

Por um longo tempo, uma eternidade de mãos frias e nervos à flor da pele, fingia se distrair bebericando cerveja enquanto lançava olhares dissimulados para a mulher desejada.

 

Quando ele finalmente se decidia, outro rapaz passava à frente. Oh céus, horror, ela aceitava, sorridente, feliz! O preterido João Bosco, solitário, permanecia à margem do salão, remoendo ciúmes, maldizendo em silêncio o volúvel caráter feminino, a repetir o comentário usual das mesas de bar: “As mulheres são todas iguais.”

 

 

O calvário do homem

 

 

Pensei o que seria no imaginário feminino o correspondente à falha de caráter masculina, o impulso natural à traição, à infidelidade. Desde menino a síntese sobre a personalidade masculina que mais ouvi em conversas de mulheres foi que “o homem não presta”. Às vezes com ênfase, sede de vingança: “Não presta mesmo”.

 

 

Bons tempos

 

 

Creio ter superado com sucesso a perigosa travessia verbal. Não houve tréplica. Lady Schnoor leu o poema em aula, sorriu e agradeceu-me com uma elegante reverência ao estilo das belas e refinadas donzelas de antigamente, do irreversível tempo em que a superioridade do homem era inquestionável, total, absoluta.

 

 

escrito em 21 de setembro de 2008